segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

effusus #2

Há vontade, ela tem-na. Ali, no bolso do casaco. Esqueceu-se de que a tinha guardado lá. Ou esqueceu ou decidiu não lhe mexer mais, pelo menos por agora. Caminha lentamente, cabeça baixa, ombros para trás, e um fio de cabelo sempre a cair-lhe do apanhado. É Inverno, as árvores estão nuas e o nariz gelado. O céu, cinzento, ameaça chuva. Nela já chove há algum tempo. Não o suficiente, parece-lhe. E ao mesmo tempo, quer voar. Mas o vento é demasiado forte e ela ainda não tem asas. Se, por um momento, pusesse a mão no bolso, a vontade tocar-lhe-ia os dedos e espalhar-se-ia por todo o seu corpo. E o sol virá, se ela o chamar.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

alguém me observava constantemente da janela - effusus #1

era noite e vagueava. por entre rasgos de sombra, tinha a impressão de que alguém me observava constantemente da janela. tinha sempre essa impressão quando vagueava pela noite. fosse qual fosse a rua, a sombra e o odor.

envergonhado, talvez, pela atenção, disputava com a escuridão um lugar à sombra, que se desenhava como um esquisso de manchas, deambulando pelo chão e pelas paredes. é tarde, enzonavam as coisas, já devias estar em casa. e eu pensava que elas falavam de mim, sem saberem que não tinha casa. enquanto alguém me observava constantemente da janela.

escondia-me por detrás de dois caixotes e cobria-me com o pano velho que encontrara no lixo. adormecia sempre ali, sob o olhar inócuo de alguém que me observava constantemente da janela.

dormindo, era eu próprio, de volta a casa, em criança, olhando constantemente da janela, sonhava ser astronauta. sorria, como se o sonho fosse a concretização dele próprio, e olhava com desalento um sem-abrigo, vagueando pela noite e entre as sombras. eventualmente, acordava. desolado. que o sono era o meu único refúgio de um mundo que me afastara da infância. e alguém me observava constantemente da janela.

nunca cheguei a saber quem era, nem qual a janela de onde me via. nunca cheguei a saber se tinha nome ou idade. nunca cheguei a saber o que fazia do outro lado da janela. mas havia um desconsolo no seu olhar, por ser o meu, quando olhava demoradamente as estrelas.

e havia alguém que me observava constantemente da janela. e era sempre o mesmo alguém, sempre da mesma janela.

sentia pena de mim, sonhava ser astronauta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O mar não devia acalmar ninguém. É violência, embate após embate, quebras violentas, força degolando o que é nosso, e tudo é amor. Até o sabor dos teus beijos molhados se torna cor-de-rosa quando o mundo gira para o lado desconhecido, por cima de muralhas da china e taças de cereais inacabadas. Inacabadas porque roemos e trincamos a vida toda, mas ficamos sempre a metade. Há sempre uma cadeira vazia, um suspiro sonoro, um eco vazio, alguém que nos deixa só a sua falta fria. Não há ninguém. Há quanto tempo não há gente no teu mundo?