quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

eu vírgula feliz ponto - effusus #3

Calha-me a mim hoje. Sim, hoje sou eu que devo deixar aqui o meu effusus. O meu lado instável, desgrenhado, vasto. Derramado. Escolhi este dia e ri-me comigo. É o nosso dia, pensei. Agora já não. Agora este dia não é de ninguém, é apenas uma lembrança de que apenas os fins são certos. E, no entanto, não há nada de instável, desgrenhado ou vasto em mim. Nem tão pouco derramado. Só há eu. Tanto eu quanto seja possível. Muito mais eu do que alguma vez pensei ser possível. Eu vírgula feliz ponto. E no meio de tantos fins, confesso que há poucas coisas de que me orgulho, que me aquecem por dentro, que me fazem sentir eu. Lembro-me da minha madrinha me dizer, por entre capas, canções e lágrimas
- Tu foste e és Coimbra
E fui. E sou. Todos os dias desde que esta cidade me acolheu, sem querer saber os meus ontens, todos os dias desde que a minha casa deixou de me bastar. É certo que não sou já a mesma que aqui chegou há quase quatro anos, carregada de malas e sonhos. É difícil crescer. Não fosse o azul escuro e não o teria conseguido. Morreram esperanças e devaneios de infância, sonhos ingénuos e sem futuro. E mesmo sabendo que tudo tem um prazo de validade, há coisas que acabam por ficar entranhadas cá dentro, talvez até para sempre. Afinal de contas,
- És Coimbra 
Ainda assim, sei que um dia terei de refazer as malas, forçar as antigas memórias e os novos sonhos dentro delas. Direi adeus à cidade, a tal da saudade, e despedir-me-ei com um beijo. De boa noite, bom dia, bom fim. Bom recomeço. Um dia terei de dizer Calha-me a mim hoje. Eu vírgula feliz ponto.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

effusus #2

Há vontade, ela tem-na. Ali, no bolso do casaco. Esqueceu-se de que a tinha guardado lá. Ou esqueceu ou decidiu não lhe mexer mais, pelo menos por agora. Caminha lentamente, cabeça baixa, ombros para trás, e um fio de cabelo sempre a cair-lhe do apanhado. É Inverno, as árvores estão nuas e o nariz gelado. O céu, cinzento, ameaça chuva. Nela já chove há algum tempo. Não o suficiente, parece-lhe. E ao mesmo tempo, quer voar. Mas o vento é demasiado forte e ela ainda não tem asas. Se, por um momento, pusesse a mão no bolso, a vontade tocar-lhe-ia os dedos e espalhar-se-ia por todo o seu corpo. E o sol virá, se ela o chamar.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

alguém me observava constantemente da janela - effusus #1

era noite e vagueava. por entre rasgos de sombra, tinha a impressão de que alguém me observava constantemente da janela. tinha sempre essa impressão quando vagueava pela noite. fosse qual fosse a rua, a sombra e o odor.

envergonhado, talvez, pela atenção, disputava com a escuridão um lugar à sombra, que se desenhava como um esquisso de manchas, deambulando pelo chão e pelas paredes. é tarde, enzonavam as coisas, já devias estar em casa. e eu pensava que elas falavam de mim, sem saberem que não tinha casa. enquanto alguém me observava constantemente da janela.

escondia-me por detrás de dois caixotes e cobria-me com o pano velho que encontrara no lixo. adormecia sempre ali, sob o olhar inócuo de alguém que me observava constantemente da janela.

dormindo, era eu próprio, de volta a casa, em criança, olhando constantemente da janela, sonhava ser astronauta. sorria, como se o sonho fosse a concretização dele próprio, e olhava com desalento um sem-abrigo, vagueando pela noite e entre as sombras. eventualmente, acordava. desolado. que o sono era o meu único refúgio de um mundo que me afastara da infância. e alguém me observava constantemente da janela.

nunca cheguei a saber quem era, nem qual a janela de onde me via. nunca cheguei a saber se tinha nome ou idade. nunca cheguei a saber o que fazia do outro lado da janela. mas havia um desconsolo no seu olhar, por ser o meu, quando olhava demoradamente as estrelas.

e havia alguém que me observava constantemente da janela. e era sempre o mesmo alguém, sempre da mesma janela.

sentia pena de mim, sonhava ser astronauta.