quarta-feira, 5 de março de 2014

uma criança - effusus #10

sentado na soleira de uma porta qualquer, encostara a cabeça à parede. estava exausto. não que o meu movimento, quase umbrático, me atormentasse o corpo. mas estava exausto. talvez fosse do sol ou do desgaste que levavam os sonhos. talvez daquele fiozinho de luz mais tórrida que prenunciava o final do dia. talvez de vaguear há dias pelas ruas, sem destino.

sem vontade de fechar os olhos, fixei-os numa criança que brincava a poucos metros dali. esperava com uma impaciência um tanto ou quanto comedida, que duas senhoras terminassem uma já longa conversa. em pequenos saltos, trocava os pés entre a calçada, enquanto o cabelo se lhe desgrenhava e os olhos riam calados, mais alto do que toda a azáfama que se fazia ouvir.

alguma coisa no sorriso entediado daquela criança despertava um outro, bem mais áspero e sem-sabor, na minha face. talvez tenha sido por isso, ou talvez pela sequência que impunham as pedras da calçada na sua brincadeira, que ela se foi aproximando de mim.

como se os sonhos que um dia eu também sonhara não tivessem ainda ganhado bolor. como se a infância fosse ainda do presente, como se me soprassem os calos das mãos e eu reaprendesse a sorrir.

decerto inquieta por ver a criança tão perto de mim, sem-abrigo imundo e lúgubre, a senhora que a acompanhava chamou-a com voz repreensiva.

e a realidade voltou a apoderar-se do meu rosto, num repente de melancolia.

terça-feira, 4 de março de 2014

#conversas



- Estás apaixonada por alguém?
(abano a cabeça como forma de dizer que sim)
- Quem é ele? É de Braga? De Vila Real? Anda na UTAD? É do teu curso?
Não. Não é tão fácil assim.
- Então? É o cabrão que te fez sofrer? Sim, eu sei que sofreste uma desilusão há pouco tempo.
Não, também Não.
- Então deixa-me fazer-te feliz. Eu consigo. Tu és a mulher da minha vida e eu quero fazer-te muito feliz. Juro que faço.

«Não. Eu não duvido disso, mas tu não podes. Ninguém pode. Ninguém pode senão ele.»

segunda-feira, 3 de março de 2014

effusus #9

As ondas engoliam as rochas, e os pássaros voavam em círculos à procura de peixe. Ocasionalmente mergulhavam para depois voltar à superfície com o que haviam apanhado no bico. As árvores ondulavam ao vento, a primeira brisa de primavera. Ela estendia-se encostada a uma cerejeira, acompanhada apenas pelos seus pensamentos e um bom livro. 
Até que alguém abriu o ralo e tudo começou a ser arrastado para os céus. Primeiro foram as nuvens, depois os pássaros, que batiam as asas desesperadamente numa tentativa fútil de se salvar. As folhas cederam logo, e depois troncos foram arrancados e sugados. 

E ela deixou-se ir. 

Seguida de um fio vermelho que parecia nunca terminar, até que o puxou a ele.

E ali, naquele lugar desfeito, fizeram-se amantes, almas-gémeas para sempre ligados através do fio vermelho que une os destinos daqueles que pertencem juntos.