sábado, 5 de abril de 2014

dos finais - effusus # 18

Ontem tive de ser uma pessoa crescida. Pus todas as tuas coisas numa caixa e fui até à tua porta. Toquei à campainha, entrei no elevador que dantes tanto me assustava e encontrei-me contigo. Trocámos caixas de memórias e sentimentos como se nada fosse, assim como meia dúzia de palavras de circunstância. Fizemos de conta que somos pessoas crescidas e escondemos os eus que foram outrora um nós. E mais um adeus. Ao descer, confesso que por instantes quase me perdi. Foi apenas por um momento, mas não soube de mim. Olhei para cima e contive as lágrimas. Felizmente, o ar frio da noite devolveu-me a lucidez, devolveu-me a mim. E aí fui finalmente uma pessoa crescida. Cresci um bocadinho e voltei para casa, sozinha comigo.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

effusus 17#

Muito bom dia.
Hoje faço anos.
Muito obrigada, até uma próxima.


(caso não tenham reparado, não há texto hoje - as minhas desculpas)

terça-feira, 1 de abril de 2014

do delírio - effusus #16

vou passando entre as vielas que se desenham no centro da cidade. feixes de luz cinzentos invadem-me os olhos e encenam um nó na minha garganta. há qualquer coisa de grotesco nestes repentes titubeantes da natureza, como se só deles pudesse depender a claridade.

depois, o vulto. o eterno vulto imaginado, de arestas limadas pela revisitação dos dias. tu. entrego-me nessa volúpia frenética de te distinguir. o teu olhar. o teu sorriso. a tua boca. o teu perfume. as tuas mãos. as mesmas mãos que tantas vezes segurei por caminhos impenetráveis.

repito, sem querer, todos os pedaços de vida que partilhei contigo. as palavras, os gestos, as canções e os encantamentos. cada um é tão real como os feixes de luz cinzentos que me invadem os olhos e encenam um nó na minha garganta. então descanso. num silêncio quase perturbante, deixo esvair o corpo. ao reabrir os olhos, não dou com os teus vestígios.

a tua realidade pode ter sido sempre imaginada. mas neste final de tarde, ao relento, a tua ausência é tão real, tão absoluta, que em silêncio me escorre pelo rosto.