A última carruagem
tardou em chegar. Decidi mais uma vez esperar até ao último instante para
apanhá-la, a coragem sempre me faltou para despedir-me de ti. Mas, consegui. E
é após este tempo mantida em silêncio, que debito um pouco sobre aquilo que
senti. É inevitável não doer quando existem despedidas como esta, mas a
aceitação e o tempo ajudam, cada vez mais me apercebo disso. A vida é mesmo
isso, repleta de chegadas e partidas, quem tem mesmo que ficar, fica.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
terça-feira, 5 de agosto de 2014
confissões endereçadas, effusus #40
Uma carta, já não sei há quanto tempo não escrevo uma carta. Só o faço quando sinto o coração pesado, sabes? Aprendi há muito tempo que as pessoas nem sempre têm a disposição ou o tempo necessários para ouvir. E portanto aprendi a ouvir-me. Esta seria uma carta para ti. Em resposta ao poema que me escreveste, ao poema em que me escreveste. Mas, infelizmente, as circunstâncias são mais uma vez traiçoeiras e o timing nunca é o certo. Assim, acho que esta vai ser mais uma carta de mim para mim. Com amor.
"É fácil esquecer-me que as coisas mudaram. Não é raro dar por mim a pensar que tenho de te contar isto ou aquilo, sejam pequenas vitórias pessoais ou as trivialidades do costume. Outras vezes apenas preciso de falar, apenas preciso que me ouças e me acalmes. Sempre soubeste o que se passava comigo só de olhar para mim. E acho que é disso que sinto falta, sobretudo. De ter alguém que repare, que note, que olhe para mim e me veja. Há coisas que me são difíceis de admitir. Já há bastante tempo que construí uma versão de mim que não precisa de ninguém, que aguenta e sobrevive a tudo e que não tem medo de nada. Uma versão melhorada e à prova de fogo, impossível de magoar. Há coisas que me são difíceis de admitir...
Preciso de ti.
"É fácil esquecer-me que as coisas mudaram. Não é raro dar por mim a pensar que tenho de te contar isto ou aquilo, sejam pequenas vitórias pessoais ou as trivialidades do costume. Outras vezes apenas preciso de falar, apenas preciso que me ouças e me acalmes. Sempre soubeste o que se passava comigo só de olhar para mim. E acho que é disso que sinto falta, sobretudo. De ter alguém que repare, que note, que olhe para mim e me veja. Há coisas que me são difíceis de admitir. Já há bastante tempo que construí uma versão de mim que não precisa de ninguém, que aguenta e sobrevive a tudo e que não tem medo de nada. Uma versão melhorada e à prova de fogo, impossível de magoar. Há coisas que me são difíceis de admitir...
Preciso de ti.
Tenho saudades dos sorrisos permanentes, das conversas tardias, da sensação de segurança. Às vezes é ridículo quão simples e boas as coisas podem ser se tivermos um pouco de coragem. Coragem para arriscar, para admitir o que era quase lógico, óbvio. E que eu se calhar não queria ver. Que se calhar não devia ter visto. Não era preciso mudar muito para que tudo estivesse exatamente igual. Para que tudo estivesse bem.
Tenho medo que seja este o fim.
E, no entanto, é preciso continuar. Quando dói um bocadinho mais, fecham-se os olhos, respira-se fundo e continua-se. Afasta-se o telemóvel, afastam-se as cartas, afasta-se o mundo. Ninguém precisa de saber o que se passa. Porque não se passa nada, está tudo bem. Está sempre tudo bem.
Sonho contigo todas as noites.
Disse-te que levas a vida demasiado a sério. Afinal de contas somos jovens, somos miúdos. Temos direito a errar, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Aliás, esta carta não era para ser para ti, que não a podes ler. Esta carta é para mim. Portanto, Inês, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Estás a levar a vida demasiado a sério. Pára!"
Recomeça.
E, no entanto, é preciso continuar. Quando dói um bocadinho mais, fecham-se os olhos, respira-se fundo e continua-se. Afasta-se o telemóvel, afastam-se as cartas, afasta-se o mundo. Ninguém precisa de saber o que se passa. Porque não se passa nada, está tudo bem. Está sempre tudo bem.
Sonho contigo todas as noites.
Disse-te que levas a vida demasiado a sério. Afinal de contas somos jovens, somos miúdos. Temos direito a errar, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Aliás, esta carta não era para ser para ti, que não a podes ler. Esta carta é para mim. Portanto, Inês, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Estás a levar a vida demasiado a sério. Pára!"
Recomeça.
domingo, 3 de agosto de 2014
effusus 39#
Cá dentro está tudo partido.
Cordas, fios, nós,
todos emaranhados,
unem os membros.
O ar é poluído e
não consigo
esvaziar os pulmões
o suficiente
para o libertar
Nos cantos
há lixo
que estala
quando me mexo
e nada está no lugar.
As limpezas
só pioram a situação.
Volta tudo ao mesmo,
demasiado depressa,
demasiado sentido.
Cada confusão,
sinto-a a cada passo,
a cada dia
de cada minuto.
Não faz mal.
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