domingo, 23 de novembro de 2014

adulthood

Tropecei numas gavetas e dei com umas palavras minhas. Parei o que estava a fazer e li-me. Perdi a conta ao número de vezes em que sorri. Aquela não sou eu. Já não. Era uma carta escrita por uma pessoa profundamente triste, profundamente sozinha e - o pior - profundamente apaixonada. Fui mais para trás. Fui ler outras versões de mim, também elas profundamente apaixonadas. E quanto mais recuava mais bonito era o mundo. Mais eram os sempres, mais eram os sonhos de finais felizes. Isso acabou, pelo menos por agora.

E não faz mal. Em versões de mim passadas, a solidão assustava-me. Entristecia-me. Agora acho-a um pouco inevitável. Crescemos e a nossa casa deixa de nos chegar. Mudamo-nos para um sítio maior. Mas vamos sozinhos. E na imensidão dos prédios e dos arranha-céus, no silêncio das viagens e na correria de todos os dias, é inevitável que andemos sozinhos. Não que não possamos voltar ao quentinho da lareira e das conversas até tarde de tempos a tempos. Mas os dias são solitários. That's a side effect of adulthood. And it's okay.

Há algumas noites, no frio de lisboa, se quisesse - se tivesse deixado - podia ter voltado. Digamos que o "amor" - e como odeio esta expressão - bateu à porta. E eu podia ter voltado à versão de mim que acredita em sempres e que sonha com finais felizes. À versão de mim que não se importa de estar profundamente apaixonada. Podia ter agora alguém para me aquecer os pés de noite e para me dar um beijo de bom dia. Mas assustei-me. Tive medo. Bati o pé. Se deixasse entrar alguém será que ainda haveria espaço para mim? Não quis perder a minha sozinhice. É engraçado, mas pela primeira vez depois de tantos anos quero mesmo estar comigo. E com mais ninguém.

Portanto fugi. E consegui. Mas só porque desta vez ele se dignou a bater à porta. Se entrar de rompante...


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

effusus #50 - das feridas

Esta ferida que me fizeste nunca mais se decide a cicatrizar. E muitos vem por ai na tentativa de a curar ou, pelo menos, minimizar, mas ninguém consegue. Não sei se tu conseguirias, mas um dia espero-(te) e desespero(-te). Se o nosso futuro não é ao lado um do outro, então, por favor, alguém que te tire do meu caminho. Ou pelo menos do meu coração.

adoro-te

terça-feira, 21 de outubro de 2014

introdução à vida adulta

Apanharam-me distraída e empurraram-me para o mundo dos adultos. Eu não queria, bati o pé e fiz birra mas quando dei por mim já tinha passado a porta. E não havia volta a dar. Tentei organizar-me e aprender a lidar com este novo universo. Sempre ouvi dizer que não era mau de todo. Resolvi dar-lhe uma oportunidade. Mas no meio das inúmeras conversas em salas de fumo - porque é a única altura em que se pode efetivamente conversar - comecei a perceber que a adultice não difere assim tanto dos tenros anos da adolescência. Sim, agora tinha um horário das nove às cinco e nem conseguia pensar em ir beber uns copos ao final do dia. Estava exausta. Mas, fora isso, depressa fui percebendo que os problemas e os dramas não vão a lado nenhum. Aquelas parvoíces tão típicas dos adolescentes, que levam logo a um "não te preocupes, é só um miúdo, não tem noção do que é a vida" afinal não vão a lado nenhum. A diferença é que agora as conversas têm palavrões como divórcio, separação, sogrosfilhos e custódia. Mas continua tudo igual, as pessoas continuam a portar-se como crianças só que agora, no fim, quando tudo falha, é tudo maior. Dói mais. E, no meio das pausas para fumar, sussuram-se confidências como "Dei-lhe sete anos de mim, Inês". E eu encolho-me na minha meninês, nunca vivi nada assim, não tenho direito a falar. Mas, quando chego a casa e dispo a pessoa crescida que ando a fingir que sou, não consigo acreditar nisso. Com ou mais experiência de vida e ainda que pertencendo a mundos diferentes, parece que andamos todos à procura do mesmo. Parece que vamos andar sempre todos à procura do mesmo. Alguém que nos agarre quando o dia chega ao fim e nos aqueça os pés na cama. E isso eu até percebo.

Mas de repente tenho medo, tenho muito medo. Vejo a minha vida a passar-me à frente e não a quero, não quero passar o resto dos meus dias entre corações partidos. Não quero que me partam mais o meu. 

Mas a verdade é que esta não sou eu. Nunca tive medo de viver. Não é agora, na pequenez dos meus vinte e dois anos, só por achar que espreitei a infinidade de dores de cabeça que aí vêm, que vou passar a ter medo. E lá está, nos meus poucos anos e na minha pequena experiência, houve algo que percebi. Pode custar quando as coisas acabam, mas também sabe muito bem enquanto duram. Mesmo muito bem. E assim vale sempre a pena.

No fim sei sempre dar a volta. Sou sempre feliz. E hei-de tentar até ao fim.