segunda-feira, 11 de maio de 2009

Eugénio de Andrade-Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Este poema fala de um amor gasto, corrompido pelo tempo e, agora, estéril. Podemos sentir a intensidade das palavras, a grandeza das frases e as imagens fabulosas que o poeta nos dá conta ao longo dos versos. Imagino que se sentem ambos frustrados por este amor não ter saído vitorioso pois, como o poeta diz, antes “todas as coisas eram possíveis” já que, os seus olhos, até se tornavam em “peixes verdes”. O seu amor era imbatível e de tudo capaz. Não haviam barreiras, nem impossíveis e bastava apenas murmurar o nome dela para que todas as coisas estremecessem. Estavam, certamente, no auge da paixão, quando os coração se encontram descobertos e sem defesas, quando o sentimento nos abre o espírito e nos arranca o orgulho, as certezas e as reivindicações. O que importa é amar, amar inteiramente, incondicionalmente. Mas isso acabou, isso era “no tempo dos segredos”, tempo que não volta mais. Agora esse “fogo” extinguiu-se, agora o amor acabou, a paixão dissipou-se. Talvez por terem abusado tanto das palavras ao ponto de as gastarem ou, simplesmente, porque quase tudo tem um fim. Dá-nos a sensação de que o amor é ingrato e que tem um tempo limitado quando, no nosso íntimo, queremos e desejamos intensamente que ele seja eterno. Ficamos com a ideia de que o amor, os afectos, as relações são fugazes e que passam por nós sem darmos conta, quase num sussurro e que vão ainda mais depressa do que chegam. No entanto, no primeiro verso do poema vemos, claramente, que algo poderia já não estar bem. O poeta fala-nos em “lágrimas”, em mãos apertadas e em “esperas inúteis”. Talvez esse amor não fosse assim tão perfeito, talvez não resultasse ou houvessem demasiadas complicações e tal levou a um vazio, a uma perda, a um não encontrar nada nas algibeiras do amor. Acho particularmente comovente a confissão do poeta quando diz que “não temos já nada para dar”. Não encaro este verso como uma inexistência de amor. Creio que ele existiu de uma forma vivaz e terna mas poucas coisas são eternas, e os amores vão e vêm como um rio apressado. Não faz do sentimento leviano, nem tão pouco menos importante, apenas o mostra real, sincero, poderoso, ainda que triste e difícil.
No final das contas, o adeus nunca é fácil.
(foi a minha parte do trabalho de literatura...foi difícil falar nele...quase chorei; quis partilha-lo por ser o meu poema de sempre)

4 comentários:

  1. e tu, já gastaste as palavras pela rua? já as corrompeste?

    eu acredito nelas, por quão enormes sejam os medos.

    gostei do poema e da tua interpretação (:

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  2. eu tb gosto deste poema
    vou ter de apresentalo em portugues
    tem muita expressividade vinda do autor

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