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segunda-feira, 25 de maio de 2015

vamo que vamo



Há grandes amores. Há amores pequeninos. Há amores que duram e amores que se perdem. Mas o importante é que continuem a haver histórias. Que continue a haver vontade. E quando já não há forças para continuar, quando já se gastaram todos os corações, é preciso ir à procura. De mais de nós. De mais de nós para dar aos outros. Para dar a alguém. Porque parar é morrer. E vai sempre haver uma nova história. Um pouco mais à frente. Um pouco mais adiante. Logo ali. Sim.

Eu quis te conhecer, mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade

domingo, 21 de dezembro de 2014

sou grande porque quero ser

2014 não foi um ano fácil. Era previsível, comecei-o de pijama, no sofá, a ver o E tudo o vento levou na rtp1. Com apenas 21 anos, tive uma passagem de ano típica de alguém que já viveu uma vida. E eu com a vida toda por viver.

É, 2014 não foi fácil. Caí de cabeça muitas vezes. Dei por mim sem chão outras tantas. Perdi aquilo que achava que era um grande amor. Fui perdendo amigos. Quase perdi um dos grandes. Tive de deixar aquele que era já o meu lar. Foi difícil. Senti-me sozinha muitas vezes. E quis desaparecer.

Mas, todos os dias, acordei com uma certeza: Hoje só não és feliz se não quiseres. E por muitas cabeçadas que tenha mandado, por muito não que tenham sido alguns dos dias, fui feliz. Mesmo quando tudo me queria manter no fundo, arranjei forças para me levantar e lutar. Por mim.

E é isto. Este não foi, de todo, o meu ano. Mas aprendi muito. Aprendi sobretudo a ser sozinha. Deixei de ter medo do escuro, do silêncio, da solidão. Aprendi a gostar um bocadinho mais de mim. E só por isso valeu a pena.

O próximo ano? O próximo ano vai ser melhor. Não sei porquê, mas quero muito acreditar que sim. Não sou de superstições nem nada do género, mas tenho a crença pateta de que, como vou entrar em 2015 com os meus - os verdadeiros, os que ficaram, os que valem a pena - vai correr tudo bem.

E se não correr não faz mal. Se todos os anos forem tão maus como este acho que me aguento bem à bronca. Afinal de contas, ninguém nunca me vai impedir de ser feliz. Porque eu quero ser.

Em suma: In your face, 2014.

domingo, 23 de novembro de 2014

adulthood

Tropecei numas gavetas e dei com umas palavras minhas. Parei o que estava a fazer e li-me. Perdi a conta ao número de vezes em que sorri. Aquela não sou eu. Já não. Era uma carta escrita por uma pessoa profundamente triste, profundamente sozinha e - o pior - profundamente apaixonada. Fui mais para trás. Fui ler outras versões de mim, também elas profundamente apaixonadas. E quanto mais recuava mais bonito era o mundo. Mais eram os sempres, mais eram os sonhos de finais felizes. Isso acabou, pelo menos por agora.

E não faz mal. Em versões de mim passadas, a solidão assustava-me. Entristecia-me. Agora acho-a um pouco inevitável. Crescemos e a nossa casa deixa de nos chegar. Mudamo-nos para um sítio maior. Mas vamos sozinhos. E na imensidão dos prédios e dos arranha-céus, no silêncio das viagens e na correria de todos os dias, é inevitável que andemos sozinhos. Não que não possamos voltar ao quentinho da lareira e das conversas até tarde de tempos a tempos. Mas os dias são solitários. That's a side effect of adulthood. And it's okay.

Há algumas noites, no frio de lisboa, se quisesse - se tivesse deixado - podia ter voltado. Digamos que o "amor" - e como odeio esta expressão - bateu à porta. E eu podia ter voltado à versão de mim que acredita em sempres e que sonha com finais felizes. À versão de mim que não se importa de estar profundamente apaixonada. Podia ter agora alguém para me aquecer os pés de noite e para me dar um beijo de bom dia. Mas assustei-me. Tive medo. Bati o pé. Se deixasse entrar alguém será que ainda haveria espaço para mim? Não quis perder a minha sozinhice. É engraçado, mas pela primeira vez depois de tantos anos quero mesmo estar comigo. E com mais ninguém.

Portanto fugi. E consegui. Mas só porque desta vez ele se dignou a bater à porta. Se entrar de rompante...


terça-feira, 21 de outubro de 2014

introdução à vida adulta

Apanharam-me distraída e empurraram-me para o mundo dos adultos. Eu não queria, bati o pé e fiz birra mas quando dei por mim já tinha passado a porta. E não havia volta a dar. Tentei organizar-me e aprender a lidar com este novo universo. Sempre ouvi dizer que não era mau de todo. Resolvi dar-lhe uma oportunidade. Mas no meio das inúmeras conversas em salas de fumo - porque é a única altura em que se pode efetivamente conversar - comecei a perceber que a adultice não difere assim tanto dos tenros anos da adolescência. Sim, agora tinha um horário das nove às cinco e nem conseguia pensar em ir beber uns copos ao final do dia. Estava exausta. Mas, fora isso, depressa fui percebendo que os problemas e os dramas não vão a lado nenhum. Aquelas parvoíces tão típicas dos adolescentes, que levam logo a um "não te preocupes, é só um miúdo, não tem noção do que é a vida" afinal não vão a lado nenhum. A diferença é que agora as conversas têm palavrões como divórcio, separação, sogrosfilhos e custódia. Mas continua tudo igual, as pessoas continuam a portar-se como crianças só que agora, no fim, quando tudo falha, é tudo maior. Dói mais. E, no meio das pausas para fumar, sussuram-se confidências como "Dei-lhe sete anos de mim, Inês". E eu encolho-me na minha meninês, nunca vivi nada assim, não tenho direito a falar. Mas, quando chego a casa e dispo a pessoa crescida que ando a fingir que sou, não consigo acreditar nisso. Com ou mais experiência de vida e ainda que pertencendo a mundos diferentes, parece que andamos todos à procura do mesmo. Parece que vamos andar sempre todos à procura do mesmo. Alguém que nos agarre quando o dia chega ao fim e nos aqueça os pés na cama. E isso eu até percebo.

Mas de repente tenho medo, tenho muito medo. Vejo a minha vida a passar-me à frente e não a quero, não quero passar o resto dos meus dias entre corações partidos. Não quero que me partam mais o meu. 

Mas a verdade é que esta não sou eu. Nunca tive medo de viver. Não é agora, na pequenez dos meus vinte e dois anos, só por achar que espreitei a infinidade de dores de cabeça que aí vêm, que vou passar a ter medo. E lá está, nos meus poucos anos e na minha pequena experiência, houve algo que percebi. Pode custar quando as coisas acabam, mas também sabe muito bem enquanto duram. Mesmo muito bem. E assim vale sempre a pena.

No fim sei sempre dar a volta. Sou sempre feliz. E hei-de tentar até ao fim.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

that's what's up, effusus #47

Juntou as folhas, ordenou os cadernos, arrumou a secretária. As canetas, os lápis e as borrachas foram para a gaveta. Pôs os pensamentos de lado. "Estes ficam para depois", decidiu. Mesmo que tentasse - mesmo que quisesse - nesse dia não havia nada para escrever. Escapou-lhe um sorriso travesso. Mais um. 

Nessa noite não havia nada para dizer. Estava feliz.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

faço o que me apetece

Your heart is broken
And you don't seem to mind
I guess it happened
A little too many times, too many times


Hoje fui eu que, ao olhar através da janela do carro, vi a lua e me lembrei de ti. Mas já não são tantas as coisas que me lembram de ti. Talvez porque eu não deixe. Talvez porque eu não queira. Acima de tudo tenho sempre de ser feliz. Acho que já não quero saber e só "faço o que me apetece".

Para ser sincera, acho que ambos sabemos que - passem semanas, meses ou anos - ninguém vai atrás de ninguém. Que o nosso tempo já foi. Mas, ainda assim, por muito que às vezes doa, por muito que "só faça pior", não me poderia nunca negar os pequenos prazeres da vida. E, naquela noite, por muito que soubesse que o amanhã ia ser diferente, quis estar contigo. Fazer de conta que estava tudo bem e que podíamos voltar a ser nós. Ali, num sítio que gritava saudade. Connosco a gritar saudade. Porque a verdade é que eu tenho saudades tuas. Tu tens saudades minhas. E assim estamos. Em eterna telepatia, como sempre.

Ficam as saudades. Podia-te escrever muito mais cartas, podia tentar escrever-te poemas, canções, sei lá. Ainda há muito que te podia dizer, que te quero dizer. Há coisas que só tu compreendes. Mas, naquela noite estranha de trovoada, consegui uma calma e uma paz que já não conhecia. Fiz tudo o que tinha de fazer. Disse tudo o que tinha de dizer. A bola agora está do teu lado. E há uma parte de mim que - contra todas as expetativas e rejeitando toda a lógica - vai ficar à tua espera.

Sabes, este tem sido um ano complicado. Saiu-me tudo ao lado. Houve muitas mudanças. Demasiadas até. E eu nunca soube lidar com mudanças. Não, este não está a ser o meu ano. Mas por muito difíceis que sejam os meus dias, tenho sabido reinventar-me. Respirar fundo, crescer mais um bocadinho a cada dia. Viver. 
Quando tudo falha, conto até três e recomeço. Arranjo sempre maneira, motivos, razões para continuar a sorrir.

 E talvez, afinal de contas, este seja o meu ano. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

effusus #44

Daqui a dez dias parto rumo a lisboa e isto vai ficar tudo para trás.

Tudo.

Para trás.


(e ainda bem)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

confissões endereçadas, effusus #40

Uma carta, já não sei há quanto tempo não escrevo uma carta. Só o faço quando sinto o coração pesado, sabes? Aprendi há muito tempo que as pessoas nem sempre têm a disposição ou o tempo necessários para ouvir. E portanto aprendi a ouvir-me. Esta seria uma carta para ti. Em resposta ao poema que me escreveste, ao poema em que me escreveste. Mas, infelizmente, as circunstâncias são mais uma vez traiçoeiras e o timing nunca é o certo. Assim, acho que esta vai ser mais uma carta de mim para mim. Com amor.

"É fácil esquecer-me que as coisas mudaram. Não é raro dar por mim a pensar que tenho de te contar isto ou aquilo, sejam pequenas vitórias pessoais ou as trivialidades do costume. Outras vezes apenas preciso de falar, apenas preciso que me ouças e me acalmes. Sempre soubeste o que se passava comigo só de olhar para mim. E acho que é disso que sinto falta, sobretudo. De ter alguém que repare, que note, que olhe para mim e me veja. Há coisas que me são difíceis de admitir. Já há bastante tempo que construí uma versão de mim que não precisa de ninguém, que aguenta e sobrevive a tudo e que não tem medo de nada. Uma versão melhorada e à prova de fogo, impossível de magoar. Há coisas que me são difíceis de admitir...

Preciso de ti. 

Tenho saudades dos sorrisos permanentes, das conversas tardias, da sensação de segurança. Às vezes é ridículo quão simples e boas as coisas podem ser se tivermos um pouco de coragem. Coragem para arriscar, para admitir o que era quase lógico, óbvio. E que eu se calhar não queria ver. Que se calhar não devia ter visto. Não era preciso mudar muito para que tudo estivesse exatamente igual. Para que tudo estivesse bem.

Tenho medo que seja este o fim.

E, no entanto, é preciso continuar. Quando dói um bocadinho mais, fecham-se os olhos, respira-se fundo e continua-se. Afasta-se o telemóvel, afastam-se as cartas, afasta-se o mundo. Ninguém precisa de saber o que se passa. Porque não se passa nada, está tudo bem. Está sempre tudo bem.

Sonho contigo todas as noites.

Disse-te que levas a vida demasiado a sério. Afinal de contas somos jovens, somos miúdos. Temos direito a errar, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Aliás, esta carta não era para ser para ti, que não a podes ler. Esta carta é para mim. Portanto, Inês, não é preciso fazer de tudo um bicho de sete cabeças. Daqui a uns anos, quem se irá lembrar disto? Estás a levar a vida demasiado a sério. Pára!"

Recomeça.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

das promessas

Foi uma noite difícil. Nunca é fácil aceitar que acabou, principalmente quando o problema não é a falta de sentimentos ou de vontades... Mas as circunstâncias, as estrelas, os outros. É, foi difícil. E por qualquer razão, no meio do desespero e da confusão, disseste baixinho "Não era suposto eu fazer isto". Puseste um joelho no chão, agarraste-me a mão e prometeste-me um futuro. Dez anos depois dessa noite.

E eu ri-me, ri-me porque já foram tantas os pedidos de casamento, tantas as promessas perdidas. No entanto, no manhã seguinte, quando o silêncio se apoderou da sala e eu não conseguia deixar de sentir a nossa história escapar pela fresta da janela, tal e qual uma corrente de ar, não me contive.
- Não faz mal, não faz mal porque isto não é o fim. Porque duas pessoas não podem fazer tanto sentido se não puderem ficar juntas. Portanto não é o fim, ainda vamos tentar outra vez. Um dia.
- Afinal és uma romântica - disseste-me.

É, acho que afinal sou.

sábado, 5 de julho de 2014

do inexplicável - effusus #34


Agora precisava mesmo de falar com alguém. Mas não o há, esse alguém. E não faz mal. Não faz mal porque se há coisa que mantenho em mim é a capacidade de me apaixonar. A minha capacidade extraordinária de me apaixonar. Uma e outra vez. Cada vez mais. Ainda que saia magoada. Ainda que já tenha tido a minha quota parte de finais não tão felizes. Mesmo não acreditando no amor, contra todas as expetativas, apaixono-me. Apaixono-me sempre. E ainda bem.

Venha mais uma.

domingo, 22 de junho de 2014

muito, meu amor

Quando é que ele chegou? Diz-me. Quando é que ele a viu pela primeira vez? Diz-me. Quando se abraçaram?

Quando é que isto começou?

Isto, o quê?

Isto.

O amor?

Sim, o amor.

O amor?

Sim, pode ser isso. Quando é que o amor começou?

Começou antes de ter começado. Um pouco antes. Nenhum deles soube quando começou. Só se sabe como é depois de já ter começado. Nem se sabe o que é, sabe-se só que já começou.

E depois?

E depois não acaba quando devia acabar. Dura mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração. 

E então?
E então é assim. Não há muito que se possa fazer. É mais do que suficiente. Tem de se aguentar. Todo o tempo que durar. Sem nunca saber, do princípio ou do fim, pode-se esperar.

Pode-se esperar?

Sim. Pode-se esperar. Sem saber o que se espera. É esse o verdadeiro esperar. Ninguém pode adivinhar o que traz o amor.

Pode trazer tudo. O amor é isso tudo que se deve esperar. 

Isso é ainda pior.

É. Não saber dizer o que é. Não haver palavras. 

O amor não tem nome, forma ou cor. Vem quando quer. Vai quando não se espera que vá.
Não se deixa adivinhar. Ninguém tem mão no amor.

E então? O que é que tu queres saber?

Eu gostava de saber.

Eu também gostava de saber. Mas o que se sabe é muito pouco. Quase nada. 

O amor não começa quando se quer, nem acaba quando se deseja. O amor é forte, destemido, indomável. Se não fosses tu, eu seria outro, dizem-se os amantes: eu quero viver na tua vida. Os amantes adivinham-se sem palavras, olham-se nos olhos à procura, fecham-se em quartos pequeninos. Perdem-se um no outro, agarram-se com toda a força dos dedos e dos braços, beijam-se sobre fundos abismos. O amor sempre mete muito medo. O medo de vir a faltar, depois de tudo ter prometido. Vai, mas não apanhes nenhum frio, e depois volta. Os amantes regressam quando a luz é pouca a um supremo egoísmo. Eu e tu e mais ninguém. O mundo pode desabar, o mar mudar de cor, a lua cair de repente. Só importa o brilho dos teus olhos e o sangue a bater nas minhas veias. Sabe-se lá o amor.

Fica quieto, não faças nada. Ama-me mais e mais, de dia e de noite. O mundo não precisa saber de nada disto.

Pedro Paixão

quinta-feira, 5 de junho de 2014

dos começos - effusus #27



E, de repente, voltaram os quinze anos. Voltaram os sorrisos tímidos, escondidos pelo cabelo. Voltaram as conversas intermináveis, os beijos roubados, as mãos entrelaçadas. Voltaram os trinta-por-uma-linha por cinco minutos de alguém. Voltaram as pequenas loucuras, as pequenas surpresas. Voltou o calorzinho por dentro. Voltaram as borboletas - sim, essas que já julgava perdidas. Voltaram os apaixonados. Voltaram os meus quinze anos e o não querer saber o amanhã. E que bem que me sabe.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

dos adeus - effusus #23


Os dias e as noites atropelam-se na pressa de chegar ao verão. Eu, pressa, não tenho nenhuma. Pela primeira vez a chegada da minha estação preferida implica um adeus. E um dos grandes. Tão grande que achei por bem adiá-lo. Por uns dias, por umas semanas, por um ano. Mas o relógio não parou e é chegada a altura do adeus. O derradeiro. O definitivo. O último. Vai ser difícil despir este quarto de mim, guardar as recordações em caixas e fazer as malas. Mas não se pode ser para sempre Peter Pan. Fica a certeza de que levo Coimbra comigo. E, felizmente, também a certeza que fica um pouco de mim em Coimbra. Nas ruas, nas tradições, nas pessoas. Eu, eu vou vestir pela última vez o nosso azul, pegar nas malas e preparar-me para a próxima estação. Até sempre.

sábado, 5 de abril de 2014

dos finais - effusus # 18

Ontem tive de ser uma pessoa crescida. Pus todas as tuas coisas numa caixa e fui até à tua porta. Toquei à campainha, entrei no elevador que dantes tanto me assustava e encontrei-me contigo. Trocámos caixas de memórias e sentimentos como se nada fosse, assim como meia dúzia de palavras de circunstância. Fizemos de conta que somos pessoas crescidas e escondemos os eus que foram outrora um nós. E mais um adeus. Ao descer, confesso que por instantes quase me perdi. Foi apenas por um momento, mas não soube de mim. Olhei para cima e contive as lágrimas. Felizmente, o ar frio da noite devolveu-me a lucidez, devolveu-me a mim. E aí fui finalmente uma pessoa crescida. Cresci um bocadinho e voltei para casa, sozinha comigo.

segunda-feira, 10 de março de 2014

das coisas que se foram, effusus #12

As altas horas da noite, alguns copos e um bom grupo de amigos são sempre meio caminho andado para conversas mais, digamos, profundas. E eis que me vejo sempre do lado dos descrentes, dos que não têm qualquer tipo de fé em coisa nenhuma. Porquê? Vejamos...

Deixei de acreditar em deus (sim, nem à maiúscula acho que tenha direito) ainda pequenina. A minha irmã tinha um amigo imaginário, o Humberto. Demorei algum tempo a perceber que os adultos também tinham um amigo imaginário, esse muito mais grandioso e magnífico mas na sua essência igual - invisível, inexistente, imaginário. Deixei de acreditar na esperança, embora já mais tarde. Depois de mais de um mês agarrada ao telefone, à espera de novidades de quem estava agarrado a uma cama de hospital, o nada. E por muita esperança que houvesse, por muitos desejos de melhoras, foi-se um alguém sem nunca ter oportunidade de dizer adeus. Deixei de acreditar em sempres aos dezoito anos. Foram muitas as juras e as promessas, os 'nada vai mudar'. E de repente era como se não tivéssemos crescido todos juntos, como se não se tivesse passado uma vida. De repente éramos estranhos. Não houve sempre que nos valesse.  Deixei de acreditar no amor também. Não sei o quando, não sei o porquê, não sei se alguma vez acreditei. Acho que duas pessoas podem ser felizes juntas, mas tudo o resto é demasiado utópico, demasiado fantasioso, demasiado mentira.

E mesmo assim sou feliz. Acredito em quê? Em nada. Em tudo. Em mim. Nos outros. Nas pequenas coisas. Nos finais felizes de todos os dias.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um, dois, três, vou nascer outra vez.

Eu acho que é assim. Dói muito e custa e é feio e mau. Ficamos tristes e queremos hibernar, desaparecer, esquecer. Mas devagarinho vamos deixando a dor e o rancor para trás. E quando o coração está curado e nos distraímos, pumba, lá vem um novo amor. E que bom que é. Renascer.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

eu vírgula feliz ponto - effusus #3

Calha-me a mim hoje. Sim, hoje sou eu que devo deixar aqui o meu effusus. O meu lado instável, desgrenhado, vasto. Derramado. Escolhi este dia e ri-me comigo. É o nosso dia, pensei. Agora já não. Agora este dia não é de ninguém, é apenas uma lembrança de que apenas os fins são certos. E, no entanto, não há nada de instável, desgrenhado ou vasto em mim. Nem tão pouco derramado. Só há eu. Tanto eu quanto seja possível. Muito mais eu do que alguma vez pensei ser possível. Eu vírgula feliz ponto. E no meio de tantos fins, confesso que há poucas coisas de que me orgulho, que me aquecem por dentro, que me fazem sentir eu. Lembro-me da minha madrinha me dizer, por entre capas, canções e lágrimas
- Tu foste e és Coimbra
E fui. E sou. Todos os dias desde que esta cidade me acolheu, sem querer saber os meus ontens, todos os dias desde que a minha casa deixou de me bastar. É certo que não sou já a mesma que aqui chegou há quase quatro anos, carregada de malas e sonhos. É difícil crescer. Não fosse o azul escuro e não o teria conseguido. Morreram esperanças e devaneios de infância, sonhos ingénuos e sem futuro. E mesmo sabendo que tudo tem um prazo de validade, há coisas que acabam por ficar entranhadas cá dentro, talvez até para sempre. Afinal de contas,
- És Coimbra 
Ainda assim, sei que um dia terei de refazer as malas, forçar as antigas memórias e os novos sonhos dentro delas. Direi adeus à cidade, a tal da saudade, e despedir-me-ei com um beijo. De boa noite, bom dia, bom fim. Bom recomeço. Um dia terei de dizer Calha-me a mim hoje. Eu vírgula feliz ponto.



terça-feira, 2 de outubro de 2012

xis,

Habituei-me a adormecer e a acordar contigo. Todos os dias. Sempre.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

starry, starry night




Quase dois anos volvidos e ainda não soube lá voltar. Nem sei se saberia dar contigo, sabes? Nunca gostei daquilo, é só um monte de terra e um monte de terra não me parece suficiente quanto mais digno. Merecias pelo menos uma lápide, uma pedra com o teu nome - Fábio. Se bem que Fábio não serviria de muito. Muitos provavelmente nem saberiam de quem se tratava. O melhor seria talvez ter o teu, digamos, verdadeiro nome. Nem eu sei a quantidade de vezes que te disse "És tão Pazito, Pazito". Às vezes ainda sonho contigo. As aulas já começaram e tu entras de rompante, como quem nem viu a porta, como se não houvesse porta. E depois o teu telemóvel toca e tu desapareces do mundo ao som dos Metallica. Fui ao teu funeral e depois só consegui voltar lá a onze de setembro desse ano, data na qual deverias ter feito dezoito anos. Por vezes imagino que nada daquilo aconteceu, que te chegaste a candidatar à universidade e que estás neste momento algures no interior do país a estudar história. Há dias em que parece que te vejo no meio da multidão. E depois apercebo-me que não pode ser porque tu simplesmente deixaste de existir. Costumávamos dizer, em jeito de brincadeira, que tu tinhas sido o primeiro atentado. Lembras-te disso? Nós ainda nos lembramos. Quase dois anos volvidos e ainda não soube lá voltar.