quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ano novo

«Nós abriremos o livro. Suas páginas estão em branco. Nós vamos pôr palavras nele. O livro chama-se Oportunidade e seu primeiro capítulo é o Dia de ano novo.» (Edith Lovejoy Pierce)

Inexecutável é iniciar do princípio, mas nada atalha, que em sinónimos de reencetar, não se grafem novas calcetas, não se demandem diferentes horizontes, não se declarem renovadas encostas.
Comemorem, a luz para o novo esboço!

(E com a) transparência exposta, que seja esta, sementes para se desejarem, para se deparem e para adoptarem o sonho. Onde (se) possui incessantemente um sinal de anima e uma intenção de estar.

Raie connosco: a efectivação, o reconhecimento, o afecto e o ano. Felicidades! *

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vir*[ar]agem!






Há sempre uma altura em que temos que virar uma nova página na nossa vida. E nada melhor para isso que a chegada de um novo ano!

Virem as vossas páginas... e sejam felizes! *




Que 2010 seja único e inesquecível para todos =)






(desconheço a autoria da imagem)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Blind.

O teu coração tem dois sentidos;
Podemos entrar e sair, ou poderíamos, se tu não fosses tão bom guarda.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal

Que o Natal seja, para todos, um dia de luz, esperança e felicidade, sem esquecer a verdadeira razão de ser desta festa: o nascimento!

Não há Natal sem poesia, por isso, este ano, a nossa árvore está decorada com pequenos versos de grandes poetas.
E o presépio, por nós pintado numa tela, tem em cima escrito um verso que dá nome a um livro de Hilde Domin: "estende a mão ao milagre"








A todos, eu e o "letras no caminho" desejamos um
 FELIZ NATAL!!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

o meu/nosso medo.














não vás, não sem mim.
ficam-me no ouvido, meu amor, todas as histórias que deixámos por contar. ficou tanto para trás, tanto do que poderia ter acontecido. cometemos tantos erros, cedemos à mágoa, renunciámos ao prazer, e hoje tudo se esbate como qual brisa gelada: os nossos dentes batem, as nossas mãos descolam-se com um gemido. não importa realmente, afinal largamos a mão para unir os corpos e combater a chuva. hoje temos medo, temos os dois medo: não negues, meu amor, eu sei que também tens. beijas-me a testa e dizes que vai correr tudo bem.
para ti corre sempre tudo bem. mas o meu medo corre mais do que o teu, eu vejo os minutos passarem enquanto tu dormes. não vás, não sem mim. podemos morrer os dois.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Let's go.

Pai, estás a tornar-te repetitivo.
Já te disse que tenho namorado e já te ouvi dizer vezes em demasia que não acreditas e que não posso perder tempo com isso.
Mãe, às vezes pareces-te com o pai.
Eu, não me vou deixar parecer convosco.
Vocês, não me vão impedir de ser feliz. Um dia, eu mesma, mostrar-vos-ei o que é ser feliz. Porque vocês fazem-me cair mas nunca me viram chorar (porque me escondo).

Inteligência tardia

Às vezes lá olho pelo canto do olho e ainda te vejo. Ainda nos vejo. Às vezes ainda passo os dedos pelos bilhetes de cinema sempre singulares e penso em como chorava no final, quem sabe se adivinha do tempo que nos condenava. E agora, em retrospectiva, depois de ter olhado pela segunda vez e de ter sentido a tua ausência bem ali do meu lado, depois de reparar nos erros imperdoáveis e gritantes, depois de me ter sentido pequena e só, penso:
o que fazia eu contigo?
















(ainda bem que percebi a tempo)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

a nossa caminhada(?)

tropeças-me a caminhada. não podia olhar para trás sem que me entrelaçasses no passado. o teu passado, o meu presente. não podia ouvir o teu nome sem voltar o olhar, sem que mais uma vez me agarrasses. desprezo a minha fraqueza; mas menos do que valorizo esta amizade. não consigo esconder-me dos outros, pouco agora de mim mesma. não importa se largámos a mão, não importa se algures lá atrás esquecemos a estrada que se enleava à nossa frente, não importa, sequer, se ignorámos as pegadas.
encontra-me, mais uma vez, uma última vez. não me largues mais, nunca mais.

(queria uma foto nossa.)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Em memória dos bons velhos tempos


Carícias face dentro, dedos entre cabelo solto e farto, mãos decididas e risonhas. Sorrisos sobre a mesa e não ouço a tua voz. Não ouço a minha, nem as inúmeras discussões e guerras mundiais tão frequentes no nosso campo de batalha. Suspiro de alívio. Éramos ferrugem persistente, faísca exagerada, a nossa junção chateia e desgasta. Não fomos feitos um para o outro, não dá-mos saldo positivo no balanço ao fim do mês. Somos bons à distância, nas entrelinhas. Somos bons com outros corpos, com outras almas, com outras salivas. Que assim seja: eu e tu, nunca amigos, nunca amantes. Leio só o teu e o meu sorriso em jeito de confirmação. Química. Que assim seja, mesmo que para sempre, mesmo que nos trame numa ou noutra rua do destino.
Carícias face dentro, dedos entre cabelo solto e farto, mãos decididas e risonhas e eu volto a amar-te.
Desta vez sem discussões.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Desabafo


O texto que se segue poderá ferir as susceptibilidades de quem (ainda) sofre por amor, perdoem-me por isso, e peço que tomem em consideração o facto de também eu ter passado pelo mesmo.
Clamem o amor eterno, gritem, façam os vossos corações ser ouvidos, lutem por vós e pelos vossos sentimentos (se forem justos convosco mesmos, evitarão mais sofrimento), e não lutem por quem amam, e principalmente, por quem dependem. Não lutem por ninguém, mas sim pelo vosso sorriso e pela vossa felicidade - isso evitará que se magoem a partir de determinado ponto. Nunca dêem como certo alguém na vossa vida, pois 'ter' é a pior forma de amar - nem sequer o é, senão a forma mais fácil de completar um vazio dentro de vós.  Por vezes a tristeza torna-se um hábito e a luta a única forma de poderem gostar da vossa própria pessoa, amor-próprio que vai perdendo brio a cada dia que passa, a cada falsa palavra de amor que ouvem, a cada rasteira que sofrem. São tantas as pessoas que nestes blogs, e não só, sofrem por amor. E a cada dia que abro um blog, mais um texto escrito em lágrimas... Quem não sofreu já por amor? Todos nós acabamos por sofrer desse 'mal', seja de amor-próprio, seja de amor por outrem. Mas não tomem nada como certo, não acreditem num facto só porque ele vos aparece à frente como a verdade, pois a verdade não existe, e transforma-se. Por vezes nunca foi senão uma mentira de cabeça pra baixo, fazendo-se passar pela verdade.
O amor existe? Existe. Mas para saber amar é preciso sabermos amar-nos a nós próprios primeiro e saber reconhecer limites. Se quiserem lutar por alguém, façam um favor a vocês mesmos e certifiquem-se de que têm amor-próprio para o fazer.

"Segundo alguns psicanalistas quando se apaixona você não se relaciona com alguém de carne e osso mas com uma projecção criada por você mesmo e a projecção que fazemos é a de um ser completamente perfeito. Mas depois de um período a projecção acaba e você passa a enxergar de verdade a pessoa com quem está se relacionando; invariavelmente algumas virtudes do parceiro ou da parceira vão embora com a projecção, outras ficam... Se o que ficou de cada um for suficiente para os dois, a relação perdura. Caso contrário...
Ninguém sabe o que faz o botãozinho ligar e iniciar uma nova projecção. O amor é inexplicável. Mas tem coisas que você pode entender..."

Sigmund Freud

domingo, 29 de novembro de 2009

Sangue-suga.

E então ficas especado a olhar para mim tipo sangue-suga. Primeiro decides roubar-me o meu corpo; ficas colado à minha pele e arrancas-me todos os pedaços de amor que tinha para te dar. Depois continuas com as tuas falinhas mansas até que acabo por me perder nas tuas teias. Não fiques à espera que eu acredite em princípes encantados, e que muito menos vá atrás de ti. Acorda! A branca de neve não existe.

[Vícios]

A nicotina invade-me... o corpo, a mente, a alma... É vício que me destrói e quase me mata.
[Vício... que sabes tu de vícios?]
A nicotina liberta-me... faz-me ser quem eu não sou, quem na verdade gostava e quero ser. Acalma-me... deixa-me respirar quando a vida sufoca. Dá-me força e coragem quando estas me faltam (todos os dias?). Alimenta-me quando a fome me vence. Faz-me dizer sim quando o mundo me diz não.
[Vícios... que sabes tu de vícios?]
A minha nicotina eras tu... E agora que tu foste... transformei o meu vício. Será o meu vício a tua simples ausência?

[Vícios... que sabes tu de vícios?]

sábado, 28 de novembro de 2009

Snow


Como sinto saudades desse teu abraço gelado
Daqueles profundos em dias de neve
Ainda me lembro do calor harmonioso que fluia entre nós
Naquela manhã fria com o despertar de um ínfimo sol
Nada adivinhava o derreter de pegadas que se seguia
Os flocos manchavam o chão cheio de pó e sofrimentos passados
Aglomeravam-se em montanhas de obstáculos que sempre deslumbrei
Oh meu amor, como anseio pela tua chegada
Pelas tuas mãos quentes que me aconchegam o coração
Pelos teus olhos que me confortam com a verdade
Pela tua voz que ecoa no meu peito e me eleva
Os sorrisos com que te deixo, são meros presentes de hoje
Amanhã, espero-te à mesma hora no banco de madeira
Protegido da neve, para apenas a podermos admirar

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

quero que saibas...

quero que saibas
que há dias em que penso em ti como dantes.
em que me apetece ligar-te só para saber como estás e ouvir a tua voz,
em que te quero contar tudo o que vi e o que aconteceu.

quero que saibas
que há dias em que penso em ti como nunca antes.
em que me tremem as mãos de ouvir o teu nome
e as lágrimas se recusam a parar.

quero que saibas
que às vezes apetece-me correr contigo para o infinito.
ainda vou lá de vez em quando, nem imaginas a confusão:
alguém mergulhou o pôr-do-sol que víamos eternamente em escuridão
e há teias de aranha em todo o lado. todos sentimos a tua falta por lá.

quero que saibas
que ainda tenho comigo a nossa caixa,
a pena de pavão, a palhinha,
a tua foto em menina com um peluche enorme,
a tua outra fotografia,
os papéis que um dia usaste para me mostrar pela web
(um deles diz "estou onde estás!"),
o bocado de cabelo que te cortei e que trouxe nas mãos até Braga,
os bilhetes de autocarro de ida e de volta,
a estrela e o totó.
quero que saibas que
ainda tenho o papel que diz que em tua casa o Panda é o canal 56
e um que diz que gosto muito de ti
de quando estivemos quase a recomeçar a nossa caminhada.

sabes que agora dou catequese ao primeiro ano?
há uma menina lá que me faz lembrar a Carolina.

quero que saibas
que ainda tens em mim um lugar só teu.
que ainda guardo todos os teus vestígios.


quero que saibas
que ainda te espero de mão estendida
e ainda guardo o teu sorriso

quero que saibas que gosto de ti
e continuas a ser a minha melhor amiga.




  


ontem
fez dois anos e dois meses que nos conhecemos...

domingo, 15 de novembro de 2009

Quereres

Já nos quisemos, ainda que por razões opostas e nem sempre moralmente aceites. Já me quiseste, ainda que agora me apagues no cinzeiro após inalações profundas que me levaram muito mais do que células e consequentes identidades. Porém, recordo-me da cor escura que vestia quando me fazias de maço de cigarros, um espécie de vício ao fundo do bolso das calças de ganga. Por vezes continuo a tentar-te, desafiando forças de vontades, desprezo por algo que, de um forma ou de outra, te ia matando as convicções. O choque e a faísca do nosso encontro fazia-te rir, era a gasolina que te alimentava o gosto pelo jogo que eu me ia cansando de jogar. A minha vida nunca foi um tabuleiro e eu muito menos peças de madeira velha. Mas tu bebias dos meus nervos, fervilhando com a minha personalidade forte e convicta, ciente dos seus objectivos.
Tu eras um deles.

E adivinha: hoje já não me queres e, o que eu queria de ti, tu decidiste não dar.

sábado, 31 de outubro de 2009


                    Impossível é guardar
                                    o
                                 R
                                   i
                                    o
                                    Que
                                Des
                                      agua
                                   No
                                         no
                                            sso
                                   Passado

Ontem já lá vai, daqui a 5 minutos já é futuro. Vivamos o presente, de uma vez por todas?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

solidão

troco as palavras quando te quero escrever, a minha mão direita chateou-se com a caneta e a esquerda nunca soube usá-la.
cambaleando por entre os dedos, ela vai enchendo de riscos e rabiscos o papel (quero sempre escrever-te a caneta, para ser tão intenso e definitivo como o que sinto).
a mão direita irritou-se: também quer ser protagonista! nada melhor que arrancar violentamente a folha do bloco - inocente que a caneta encheu de patetices - e amarrotá-la sob o meu olhar indiferente.
queria-te escrever alguma coisa especial, mas a caneta não deixa, a mão direita não deixa e a mão esquerda nunca soube. o meu olhar permanece assim, indiferente. eu permaneço calado.
quando te quero escrever, gasto blocos de folhas inocentes, que a caneta enche com patetices, ainda antes da mão direita, irada, arrancar violentamente e amarrotar sob o meu olhar indiferente.

podia passar horas a contemplar o teu sorriso e o teu olhar, e aí dizia-te tudo.
dizia tudo sem palavras, que a língua enrola-se quando te quero falar.
dizia-te tudo com um olhar ou um sorriso. dizia-te tudo num silêncio.
podia passar horas para te dizer tudo, se ao menos estivesses aqui.

largo a caneta e o bloco, coloco a cabeça entre os joelhos e penso em ti.
um toque estridente do telefone corta o silêncio amargo.


talvez, talvez sejas tu!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Para um Pai Ausente.



Pai,
hoje, quase 10 anos depois de nos teres abandonado, decidi escrever-te e contar-te tudo o que senti na tua ausência. Ausência essa que sempre senti mesmo quando ainda não tinhas saído de casa. Na realidade nunca foste um pai a sério. Não, eu nunca tive um pai como todos os meus colegas de escola. Tu nunca passeas-te comigo aos fins de semana, nunca me levaste á praia e nos dias frios de Inverno nunca me aconchegaste os lençóis. Eu sei porque todas as noites ficava acordada até te deitares, sempre na esperança que o fizesses. Nunca me pedis-te para me sentar ao teu lado, nem nunca me contaste histórias. Esquecias-te de mim frequentemente e se te lembravas era só e apenas para dizeres que não fazia nada de jeito. Comecei a pensar que era um peso para ti e desejei muitas vezes nunca ter nascido. Na tua carteira não havia espaço para uma fotografia minha e nunca guardaste os desenhos que te oferecia no Dia do Pai. Eu nunca me esquecia de ti.
Cresci no meio das tuas discussões com a mãe. Tinha tanto medo quando gritavam. Ás vezes espreitava pela porta entreaberta do vosso quarto e via-te levantares-lhe a mãe e agredi-la tanto física como psicologicamente. E, ela gostava tanto, tanto de ti que não tinha coragem para te largar. Consentia tudo.
Porque é que nunca foste capaz de demonstrar carinho pela tua família? Pelos que mais te amavam? Porque é que sempre anulaste esta parte de ti, que éramos nós?
No dia em que a minha mãe teve coragem para te amachucar as roupas e as enfiar numa mala velha e rasgada, com o coração estilhaçado, e te pôs fora de casa, eu chorei a noite toda. Por mais ódio que sentisse em relação a ti não imaginava os dias preenchidos de vida tua, nesta casa. Durante muitos dias esperei que regressasses e tu não voltaste nunca. Mais uma vez esperei e voltei a esperar em vão.
Mas sabes, pai... eu sei que apesar de tudo tu me amas ainda como sempre amaste. Apenas nunca soubeste demonstrar esse amo. É impossível os pais não amarem os filhos. O amor por um namorado/namorada, marido/mulher, amigo/amiga pode desaparecer. Mas o amor por um filho nunca, mesmo nos piores dias. O amor por um filho permanece sempre. Apenas ás vezes se pode esconder, numa parte funda de um coração deficiente como o teu, mas eu acredito que um dia vais lembrar-te de mim e vais procurar-me ; vais sentir o arrependimento perfurar-te a pele e vais correr para mim para me abraçares e com lágrimas nos olhos vais dizer baixinho: Desculpa, filho.
E eu, que estou aqui á espera desse momento, como sempre estive, como sempre hei-de estar, vou abrir-te os braços, abraçar-te com força e também com lágrimas nos olhos e o coração cheio de felicidade vou dizer-te: Eu desculpo-te, pai.

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PS: Espero que gostem do meu primeiro texto neste blogue :)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

Intrigas;

(Ao inicio de uma manhã de Domingo)

Mãe: Atira a camisola do teu namorado para debaixo da cama e vai é estudar!

(silêncio)


Não vais conseguir fazer nada para que recue na minha felicidade ou deixe de lutar por ela, nada, sublinho- Foram palavras para o interior; eu permaneci calada enquanto os olhos vidravam.

(a camisola está e vais continuar a estar todas as noites à minha cabeceira, ou sobre o meu peito)


Isto foi só um desabafo, um grito de revolta. Peço desculpa.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Uma questão social

Já passei por picos, por altos e baixos. Às vezes penso que estou a curar mas isso é um erro. Doenças como tu não se curam assim. Pelo menos estou medicada: sinto menos tonturas e as febres altas são cada vez mais espaçadas. É verdade que ainda cambaleio um pouco, que o nariz se entope e que a minha mãe, com a mania das medicinas, me pergunta insistentemente se não quero um chá. E eu olho perplexa para ela, entre espirros e lenços de papel, e não entendo como pode ela pensar que me livro de ti através de ervas em água quente. Mas não a culpo. Ela não sabe de ti. Viu, por diversas vezes, os meus olhos a brilhar, voz afinada em cantorias pela casa e, adivinha, viu dentro do meu coração alguém dele apoderado. Mas não a culpo. Inventei uma desculpa e desvalorizei-te. Não te dei nome, nem morada, nem retrato. Como isso me custou. Porém, não valia a pena. Pessoas como tu não têm nenhuma dessas três coisas e contigo, desde cedo aprendi a amar um amor incógnito. Foste apenas um passarinho. E foi isso que eu lhe expliquei.
Às vezes penso que estou a curar. Já nem espero que me ligues. Sei que não o farás. Já nem espero que te encontre. Sei que os nossos relógios nunca se acertaram. Vivemos em tempos diferentes, em épocas distintas. Somos quase um estrato social impossível de se fundir. Se as regras são para se cumprir não percebo a nossa insolência ao romper com as normas sociais. Viemos de culturas diferentes, está visto que os valores também o são.
Às vezes penso que estou a curar mas eu ainda não ultrapassei a vontade de te dar um nome, uma morada e um retrato.
Dá vontade, na maior parte das vezes, de amar alguém com identidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Quebramos os dois

Era eu a convencer-te que gostas de mim.
E tu a convenceres-te que não é bem assim.
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro.
E tu a argumentares os teus inevitáveis
Eras tu a dançares em pleno dia
E eu encostado como quem não vê
Eras tu a falar para esconder a saudade
E eu a esconder-me do que não se dizia
Afinal quebramos os dois.

Toranja

terça-feira, 29 de setembro de 2009

(antes de mais, este texto é insano, e foi escrito para tudo menos para fazer sentido. de qualquer forma, fica aqui.)

ela, jovem e comprometida, e ele, menos jovem por comprometer. nela douravam os cabelos loiros como tardes primaveris, nele se destacava a pele clara, onde o inverno se transformara. cruzaram-se por ventura no funeral dum pobre coitado, que lhe valeu o destino, de peripécias recheado! e em tal ambiente de luto, os dois jovens se encontraram, atrás da mortuária, os primeiros amores trocaram:

"rapariga, pára de me beijar assim, se o teu noivo descobre, dá cabo de mim!"

"e que te importa, rapaz? o que está feito não é de voltar atrás."

e os dias passaram, enquanto ela contava pelos dedos da mão, ele gravava saudade no seu coração. desconfiado, o noivo da donzela investigou, e os seus mais secretos conhecimentos usou. e quem diria, amigos meus, quem diria, de quem a culpa seria? esse sacristão malvado, que por 2 contos de rei, desgraçou o destino do casal enamorado! enfurecido mas perspicaz, o noivo traído elabora um plano mordaz! passam os dias, e chega-se domingo, a alegria da missa e as tardes no pingo! acorda excitada a donzela pecadora, e sem perder um segundo, penteia as tardes primaveris até ao fundo. óh, belos cabelos lembraram o jovem, que fez a barba como um verdadeiro homem. ao chegarem à igreja, os olhares trocaram, e em suas apaixonadas cabeças, logo magicaram!foi o triste do noivo quem não achou engraçado, que se preparou para activar o plano traçado. ao tocarem os sinos disse ela:

"amor meu, deixa-me ir ali, isto de ser mulher faz-me imenso xixi!"

"vai queridinha, vai lá meu coração." (e mal sabia ela que este xixi ia dar confusão...)

ao chegar à mortuária, diz-lhe o amante com excitação:

"vem comigo minha flor, que aqui está calor!"

"vamos rápido minha maçãzinha, que vem ali uma vizinha!"

e com uma corrida e umas risadas, estavam finalmente de mãos dadas. ai, que saudades! apertaram-se e beijaram-se, como se não houvesse amanhã, ela, jovem flor, e ele - a maçã. de repente ouviu-se um grito, ficou logo tudo aflito:

"SUA TRAIDORA, e eu apaixonado por uma sem-vergonha pecadora!" (disse o noivo agitado)

"amorzinho, isto não é o que parece! é uma confusão da tua cabeça, esquece!"

"mas por quem me tomas, minha rameira? um como esse, à tua beira?"

e com tal escabeche, juntou-se uma multidão: eram homens e mulheres, o padre e o sacristão.

"valha-nos jesus cristo, que ninguém esperava isto!" (diziam as velhas)

e sem tempo para acabar, o noivo saca de uma arma e toca a disparar! vejam lá o azar, entre estes despejos de loucura, no jovem apaixonado acabou por acertar! óh triste destino, não são fados justos para um jovem menino! vista esta desgraça, a donzela deu em chorar, e sem se aperceber do estrago, o noivo continuava a gritar. que horror, não queiram imaginar, quem tenha estômagos fracos, é melhor nem pensar. morto e avermelhado, jazia o amante no meio do chão, e a pobre donzela, com as mãos no coração!

"mata-me a mim também" disse a moça sem hesitar "sem este meu amor, nem vale a pena continuar!"

"mas eu amo-te meretriz, ainda te deixo voltar, desde que me prometas, claro, que não te voltas a deixar levar" (disse o noivo, também ele a chorar)

incompreendida e cheia de dor, olhou em seu redor. tudo muito assim-assim e uma tesoura para podar o jardim. sofredora e apaixonada, correu para o objecto, e num golpe só - ZÁS! - matou-se a tresloucada. toda a freguesia contemplou tal acontecimento, e poucos eram os que acreditavam no que viram no momento. era deste amor fatal, os livros que o senhor emanuel vendia, na rua principal. e jazem ainda hoje, os eternos amantes num túmulo bonito cheio de velas brilhantes.

(e dizem vocês: morreram estes dois... mas e então o noivo? esse morreu atropelado, por uma carroça dos bois, uns dias depois.)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Reflexos de sentimento


Vagabundo olha o azul céu
Escuta atentamente o eco que soa
Enquanto cobre o seu rosto com um véu

O eco que se encontra a escutar
É a voz de culpa, mágoa interior
O véu que faz o rosto apagar
Faz-lhe amenizar o passado, a dor


Quando ao espelho se olha
Revela negro, triste e vazio olhar
E, quando consegue vê-la
Vê também, numa luz desvanecida
A sua mulher, em seu coração perdida
Naquele corpo sujo, suavemente a tocar

Ela humedece-lhe os lábios
Olha-o nos olhos e dá-lhe a mão
Murmura-lhe, ao ouvido, versos sábios
Os que só na voz dela assentam bem
Os escritos pelas lágrimas, no coração

Lágrimas que lhe humedecem os lábios
Quando ao espelho, ele não a pode ver
Lágrimas que lhe dão voz para soluçar
Tais versos que nela eram o maior poder

E nesses momentos, abandonado
Palavra a palavra o podemos escutar
A ler o que está escrito no seu coração
Como se ela ainda estivesse ao seu lado
Pronta para o beijar e agarrar-lhe na mão

Sem retorno


Gosto muito de ti.

Fim da história.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009





Ele é um ponto de interrogação na minha vida. Esteve presente até aos meus 12 anos, indo eu ter com Ele todos os domingos.
Via-o como alguem gigante que brincava conosco como fossemos marionetas, e nós, sempre mantendo a postura. Um por outro lá se estragava e ia para o lixo : era a morte !
Sempre tentei visualizar o mundo de forma a que Ele estivesse do meu lado, sempre tentei ver como seria quando a minha carreira de personagem de marioneta acabasse: será que depois do lixo há ainda a hipotese de ser recomposta e ser posta novamente em cena ? Mesmo que desta vez numa nova personagem ?
Ele abandonou-me, deixou-me sem me esclarecer sobre o mundo e os constituintes.
Ele entrou em coma, assim como o mundo, e nós andamos a dar cabo uns dos outros.
Onde estás Tu ? Porquê me deixaste ? Ou será que nem nunca comigo estiveste realmente ?
Daqui 15 anos, estaremos todos a terminar a nossa carreira.
Adeus marionetas .

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Amores de uma vida

O amor das nossas vidas vem sempre para ficar. Desarruma tudo, rouba tudo, sapatinha tudo. O amor das nossas vidas é um filho da mãe dos piores e deixa-nos sempre de joelhos no chão suado, cabelo espigado e olheiras de noites passadas em branco. O amor das nossas vidas é mesmo assim e não pode ser de outra forma porque, se o fosse, não o era. Passo os dedos pelo cabelo afastando pequenos cachos da frente dos olhos. Dou meia volta, ponho as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga clara e abandono a cabeça para trás até encontrar a parede. Fecho os olhos e ouço os carros lá fora, a agitação natural da cidade apressada. Penso em ti. Penso muito em ti. Vi-te e tu viste-me. Vi o teu sorriso e tu viste o meu, sorrisos que não eram a nós dirigidos, que disfarçavam palavras entaladas e lágrimas sufocadas, sorrisos de circunstância, gestos que sobravam daqueles que nos acompanhavam. Sorriso teu que eu tenho decorado em mim como quem deixa uma cassete a gravar para nunca perder aquele episódio inesquecível. E há um fosso entre nós, uma muralha. E não te posso ouvir e tu não me podes tocar. E o meu coração torna a descompassar, a gritar e a rasgar veias e artérias. E vejo-te ir, como vejo sempre, porque tu não foste feito para ficar, para permanecer. Vejo-te abandonar o alcance dos meus olhos, provavelmente atrás de um amor da tua vida a part-time, alguém que, ao contrário de mim, se sujeite a horas vagas, a horas gastas.
O meu querer de ti é transcendente, é desumano e irracional, é proibido e insano, é alcoólico e irreversível. Enervo-me muito, sacudo a cabeça e aperto os olhos. O amor da minha vida não devias ser tu e eu não devia estar agora de joelhos pelo chão suado, não devia ter o cabelo espigado e olheiras de noites em branco. O amor da tua vida não sou eu, não é ninguém. Suspiro de alívio. Chama-me egoísta mas, ao menos assim, posso culpar o teu atraso emocional e não o meu amor próprio.
Os amores das nossas vidas, se não nos servem, deviam eclipsar-se do nosso coração e não ficar no lugar das memórias vivas, das memórias diárias.
O amor das vossas vidas não devia ser como o meu.

terça-feira, 22 de setembro de 2009


Eu não sei quem sou.
Não sei quem sou, porque não sei quem são vocês.
Olham-me com desdém só porque a minha mentalidade não colabora com as vossas. Se a minha pede massa a vossa pede batatas, se a minha quer água a vossa quer vinho, se a minha quer verdade a vossa quer mentira. Ninguém é o que julga ser nem ninguém é o que os outros dizem. Então o que somos ? Nada, limitamo-nos a achar-nos algo, mas nunca somo nada em concreto.
Ninguem nos conhece nem nós conhecemos ninguem.

So queria voltar a ser criança,
onde era o que era e sabia que era,
e todos sabiam que eu assim era.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dantes dizia-te:

Sentimos todo aquele chão a cair sobre nós; a parede forrada de novelos de lãs onde as cores são ofuscantes ao nossos olhos. A luz está meia ligada, e o candeeiro faz rodopios de sensações em espiral. Nós sorrimos, um pouco embriagados pelo sabor da noite. Deixamo-nos levar pelo momento e contamos histórias de embalar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Browny

março de 1998, tinha seis anos, quase sete, tu chegaste.
trazias contigo vida. uma vontade de correr e destruir tudo.
desde aquele primeiro olhar, tu ainda sem nome junto da tua irmã gémea, sempre te amei.

obrigado pelas conversas de tardes inteiras em que me ouvias sem me largar um só momento.
obrigado pelas vezes em que me ficavas a olhar enquanto te falava e me lambias as lágrimas que chorava.
obrigado pelas corridas juntos, pelos meus sorrisos, pela tua cauda a abanar, pelas noites em que assustado pela trovoada te metias na cozinha (e algumas vezes no meu quarto), pelas vezes em que me acordaste a meio da noite ou nem deixaste adormecer, pelas vezes em que fugiste e voltaste sozinho, pelas vezes em que me defendeste, pelas vezes em que saltaste para me atirar ao chão, pelas nossas brincadeiras juntos, por tudo.
é impossível descrever tudo o que passámos juntos,
foste e és como um irmão, mais novo e mais velho.
obrigado por teres estado sempre ao meu lado.

o boggy ainda está a uivar, lá fora.

ergam-se os ventos e as tempestades e desabe o mundo,
nunca hão-de levar-te de mim.

março de 1998, entraste na minha vida.
onze de setembro de 2009, permaneceste (no coração e junto à raiz da macieira).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Terra infértil

Hás-de ficar solteiro toda a vida. O teu estado nunca muda. Deixemo-nos ficar no atrasado emocional. E quando olhares para trás, quando a vida já te tiver passado pelos olhos e pelo corpo agora amadurecido e velho, sentirás o coração amarrotar de vazio, vazio que semeaste como quem espera colher trigo dourado. E quando olhares para trás perceberás que perdeste corações cheios, a transbordar de amor por ti. E será tarde, muito tarde porque nada cresce em terra seca. E quando eu olhar para trás, quando a vida já me tiver trazido uma grande árvore de fruto, olharei para ti e dir-te-ei ainda com bocados de espinhos cravados na alma, que era eu esse coração a transbordar de chamamentos. O mesmo coração que assassinaste no rodopio desse vazio infértil. O teu estado nunca muda e, quando mudar, vai ser tarde, muito tarde, e já terás perdido cascatas de oportunidades para encher a tua vida.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

esquecimento

viste passar na minha face, uma atrás da outra,
as lágrimas que os teus gestos se esqueceram de chorar.
viste-me arrancar do meu peito, com as mãos,
um coração que o teu se esqueceu de amar.

e ficaste calada,
até que venha o vento forte que me levará para longe
para me esqueceres.

por enquanto, o vento é só uma brisa,
que me envolve e devolve ao teu pensar.

domingo, 6 de setembro de 2009

Grave

Dizer que te conheço no escuro, no meio da multidão, é grave. Eu ainda não te esqueci. Ainda sei como te apoias no pé direito de braços cruzados, ainda sei as formas do teu rosto quando sorris e de como levantas o olhar por cima da minha cabeça quando o fazes. Ainda sei do charme que te transpira do corpo, do fumo que travas desenvolvendo cancros dentro do teu organismo. Cancro és tu em mim. Ainda sei de como te sirvo para as horas vagas, quem sabe se duas noites por mês. Ainda sei do teu andar e do choque da tua boca, da frieza das tuas mãos. Ainda sei dessa frustração emocional, desse Casanova que encarnas como se a vida fosse um jogo, como se eu fosse uma vítima. Dizer que ainda te conheço os tiques e as manias é grave. Ainda te descubro de olhos fechados, ainda ouço aos meus ouvidos a música que fazes com a voz desumana. Eu ainda não te esqueci.
E, ás vezes, ainda me deito a pensar que só gostava que aprendesses a lembrar-me.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

olha...

olha, queres ver?
queres ver o que o tempo nos fez?
o que as horas escuras e gastas nos fizeram?
até mesmo os sorrisos perdidos, falsos e vazios,
até mesmo o medo implícito nos dias que não passaram,
é que até mesmo o amor que juraste ter, uma vez,
para ti tudo era mentira, era simples esquecer,
esquecer os espaços que pisámos juntos,
e para mim era quase impossível nem sequer revê-los.
melhor, eu nem sequer sei o que para ti é verdade.
por isso, tu continuavas aquilo a que chamavas vida,
seguias sempre em frente.
hoje sabes onde estás, no fundo do mais fundo,
assim, eternamente...
para ti ainda tenho um sorriso,
aquele que guardei, não sei se na alma ou no coração,
é para ti,
um dia, tu sabes,
entregar-to-ei em mão.
porque apesar de tudo, eu amo-te*

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Todos fazemos barbaridades por amor. No genes humanos vem impressa uma capacidade de auto-preservação que faz com que tenhamos o sangue frio suficiente de passar por cima de tudo e todos quando se tem em vista o destino final da felicidade.
Eu não sou diferente, por muito que me apontem o dedo a culpa não é minha. Tenho esta vontade tão egocêntrica de o querer para mim, SÓ para mim e não a consigo contrariar.
Eventualmente, deve haver um limite para isto, não sei até que ponto consigo ser uma má pessoa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

almas gémeas

tocam-se os rumos das nossas mãos, cruzam-se as nossas vidas e acreditamos.
o meu braço no teu ombro: a vida inteira.
não estava destinado, nós é que escolhemos que fosse assim.
sonhamos juntos, que há um lugar só nosso para sonharmos, mesmo que acordados.

disse-te que te amo. ouviste?
o meu lugar é ao teu lado. sabias?
dá-me a mão. o mundo espera-nos, meu amor.

sábado, 8 de agosto de 2009

Raúl Solnado






"Há chorar com lágrimas, há chorar sem lágrimas e há chorar com riso"
(Pe. António Vieira)

Obrigado

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Conto de fadas


- Mãe, amanhã vou em busca do meu principie.
- Oh filha, histórias de príncipes e princesas, já só existem em sonhos.
- Está bem, então amanhã vou de olhos fechados.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Chão

Dou por mim quieta, sentada no chão frio da casa pouco iluminada. Dou por mim parada no tempo, recordando-te em cada esquina deste espaço. Furaste a minha intimidade, o meu lugar por direito. Devias ter feito por ficar. Não fizeste e, por isso, fecho o portão de entrada atrás de ti e vejo-te desaparecer de vez na escuridão cerrada. Carrego o teu peso comigo: não tenho vergonha de admitir que te pus fora do meu caminho mas não do meu coração. Ficaste calado, mas por pouco tempo e o que me dizes chega-me com suavidade invulgar. Não sei se me acreditei tormenta. Mesmo que fales verdade. Eu quero actos, provas, factos. Só lido com o palpável e o amor também o é. O amor não são só palavras e nem nessas tu és bom comigo. Mas tu não dás actos, tu não dás nada. E se não me dás, então não te quero. Amor, como já disse, nunca foi sinónimo de ímpar para mim. Convicções dessas o tanas. No amor as convicções são poucas e só são permitidas aquelas que nos permitem proteger. Convicções como a minha.

terça-feira, 28 de julho de 2009

uma letra de outro



Meu amor, tu já passaste na minha vida. Vi-te no sorriso da Mara, nos olhos da U, na capacidade de sonhar do ti em mim, na magia da pinguim, no jeito de amar do Afonso...
Passaste. Aos bocadinhos, um de cada vez, mas passaste.
Se eu pudesse arrancar um bocadinho daqui e dali para te ter única e só para mim... Mas não posso! Enquanto isso, passeio por aqui e por ali. Talvez consiga encontrar esse sosma (como eu gostava que não soasse assim tão estranho) ao virar da esquina.
Mas a vida fez-me céptico.
E desculpa se não acredito que existas.
Queria levar-te à lua e ver o nascer do sol, queria agarrar-te na mão enquanto te mordia a bochecha, queria sorrir para ti enquanto te mandava um piparote no nariz, queria chorar contigo enquanto tu choravas comigo, queria dar-te uma flor e levar-te para o quarto como uma princesa.
Queria ser feliz! E se para isso precisar de ti, o amor da minha vida, então queria-te a ti!
Mas não acredito...
O que eu acho?

São "apenas" letras no caminho...

(o facto de não incluir toda a gente não quer dizer que não goste de todos por igual :p Aliás... Até nutro um carinho especial pela pinguim (só por acaso não é tonta?), por isso...)




este é um rascunho solto por Nuno, apenas Nuno.

.
saudade. a eterna ausência. arrastam-se cardos, morrem espinhos, e mais uma volta ao ponteiro. cheiro a incenso e a vazio. isto de quem entra e se aconchega num recanto, deixando a sua fragrância entre os lençóis que, após a despedida, se mostram estrangeiros. extinguiu-se a química, o toque, o beijo, cada milímetro dessa pele que eu tanto queria sentir, arderam as palavras e da combustão resulta, nada mais nada menos, que apenas saudade. inspiro arrependimento, por ter deixado em corpo teu, apenas memórias e remorsos. expiro longe, esperança.
a saudade, meu amor, também mata.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

(doce) século XXI

"E viveram felizes para sempre."

A Branca de Neve não viveu feliz para sempre.
Não acredito na força do destino neste caso, não acredito que ela estivesse destinada a casar-se com o Príncipe Encantado e viver numa felicidade eterna.
Imaginemos a princesa adormecida no caixão de vidro à espera da salvação. Em primeiro, porque é que estamos sempre à espera de ser salvos de alguma coisa? Até de nós próprios em dias que nos detestamos profundamente?
E se o destino alterasse as suas rotas e o Príncipe não aparecesse? Nunca se teria apaixonado à primeira vista (também isso nunca acontece) por uma rapariga supostamente morta. E a Branca de Neve permanecia intacta, sem nenhum toque. Ou teria morrido de vez por sufocação ou teria acordado, engasgada pelo pedaço de maçã que tinha comido.
Farta de estar adormecida para o Mundo, saí do seu caixão de vidro e percorre um longo trilho até à grande cidade. Nunca viu nada tão belo, tinha estado fechada durante toda a vida no castelo sob as saias da madrasta e nunca tinha sentido o verdadeiro sabor da amizade.
Rapidamente, compra roupas novas e de marca (realmente as montras aliciam qualquer um) e muda radicalmente de penteado. É incrível o desespero do ser humano em mudar-se superficialmente para se sentir bem e nada melhor para a princesa do que mudar o exterior. O interior sempre foi vazio até ao dia em que conhece uma nova espécie de príncipe.
O Príncipe que a seduz num bar onde os fumos e os cocktails fazem parte do ambiente. Pobre coitada que nunca soube o que era a vida, já que a inveja da Madrasta a tinha feito andar escondida do Mundo e é dada como carne fresca no antro de perdição. O vazio no interior acaba por ser preenchido por todos os tipos de Príncipe numa cama mais próxima.
Mas no final de tudo, ela é feliz.
O que é completamente diferente de viver feliz.
Encontrou a felicidade porque não ficou a viver na ignorância para toda a vida, não suportou os caprichos de um homem que mal conhecia e que acreditava estupidamente em amor à primeira vista. E principalmente, aprendeu com os pequenos erros. Dormiu com muitos Príncipes e quê? Conheceu o podre da cidade e quê? Continua feliz.
E já agora, um dia destes vai engravidar com inseminação artificial.

Sono


O meu pai espera que eu durma. Diz que não descanso, que preciso de um bom par de horas esticada na cama alta e confortável. Vejo nos seus olhos preocupação. Espera que durma, como o mundo inteiro espera. Mas eu não durmo. Confesso que até há bem pouco tempo me enfiava nos lençóis até muito para além de horas decentes(algo muito pouco típico meu), arrastando os pés até à casa de banho onde, em vão, tentava lavar alma e coração atirados contra muros de amor contraditório. Confesso que via o sono como um escape, como um analgésico. Fugia do exterior, fugia de ti. Descia persianas, fechava portas, escondia-me por baixo de roupas largas e antigas. Antiga ia eu ficando, cada vez com mais rugas na alma semeada de hematomas que não passam, que não saram. Há dores que o tempo não leva, amores que o tempo não apaga. Eu não te quero apagar. Sou tão fraca. Tinha-me como mais dura nestas coisas, como mais decidida, como mais fiel a mim mesma. Onde me meti? O que raio fizeste comigo? Pensava que a boca não me trairia. Digo-o com confiança. Digo-te a ti. E tu rasgas esse véu que eu decido pôr entre nós com um sopro leve, quase imperceptível, véu retalhado que eu demorei horas infindas a cozer de novo. E o coração balança, assim como a voz e a porra da certeza, da convicção. E ardo muito de aflição. Nunca senti o chão fugir dos pés e digo-te: és o melhor a iniciar-me nestas andanças. Não tenho raiva, não tenho gritos, não tenho nada de mal para ti em mim. Só quilómetros e quilómetros de vazio, perdição, desilusão comigo mesma. O sono não ajuda. O sono faz-me sonhar contigo e eu não te quero lá. Tive-os em demasia sobre ti. Eram dissertações de utopias a dois. Furaste-mos precocemente. Quero que o sono seja essa distância de segurança entre os nosso corpos e as nossas mentes. Ao menos lá não te quero perto.


O meu pai, adormecido em preocupação por mim no quarto ao lado, espera ouvir o meu serenar. Mas pai, eu sou vulcão de desalento em erupção, não posso dormir.
Porém prometo-te: não farei barulho.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


E anos depois, ele provou a todos que aquilo não era assim tão efémero, tão pequeno, tão vulgar. Não tinha dito “amo-te” a muito mais gente, mas, na verdade, tinha caído no erro da maioria das pessoas desta actual e pouco inteligente sociedade de retirar o valor àquela palavra, e pronunciá-la sem a real noção do que sentia pelas mulheres que teve do seu lado. Nenhuma delas ele realmente tinha amado; admirado e respeitado talvez.
Naquela noite ele tinha voltado a sonhar pela milésima vez com a mesma coisa. O sonho era sempre o mesmo, de tal modo que quando acordava só sabia que tinha realmente sonhado com ela, se ao acordar tivesse ainda na cabeça a imagem daqueles olhos verdes. Uns afirmavam que era obsessão, paranóia incurável de tão recalcada que estava nele aquela relação inacabada. Mas ele sempre teve consciência de que aquela relação, interrompida do nada por uma coisa de nada, teria que ser acabada um dia; a bem ou a mal, ela teria que levar um ponto final para que os dois pudessem seguir com as suas vidas, juntos ou… a sós.
O sol tinha já levantado. Eram 7 da manhã, e depois de passar pelo Lobbie do hotel, onde cumprimentou e trocou dois dedos de conversa com um velho amigo que já não via há anos, dirigiu-se à sala de pequenos almoços, onde leu o jornal e tomou a primeira refeição do dia. Tudo parecia decorrer como o habitual neste sétimo dia de férias, férias estas que estavam agora a chegar ao fim. Nova Iorque era aquela cidade que ele imaginava. Um pouco mais “real” do que aquilo a sua cabeça tinha sonhado, porém perfeita mesmo assim…
Momentos mais tarde, eram 8 da manhã, ele saía do hotel, em direcção ao rio. Era o último dia ali, e ele queria estar num sítio sossegado onde pudesse lamentar por umas férias que mais uma vez não lhe tinham trazido nada de útil. Ficar a ver os barcos a vaguear pelo rio da cidade era bom. Mas sempre que se encontrava sozinho voltava aquela tão velha e habitual sensação de perda, de solidão, de incompreensão. Daquela vez, porém, a sensação não durou muito, ou talvez se tenha transformado repentinamente. Parecia que, de repente, o sol brilhava ainda mais, que o vento tinha parado, talvez o mundo, e nem os sons ouvia. Não era nada que não tivesse pensado já, afinal sonhava com aquilo todos os dias. Era, efectivamente a paixão da sua vida. O mesmo olhar, o mesmo andar e maneira de estar. Parecia tão irreal, e embora já tivesse ouvido falar de histórias reais parecidas, não pensava que aquele sonho pudesse virar de facto realidade. Caminhava, naquele momento, em direcção a ela, ao mesmo tempo que comparava a realidade àquele sonho de tantos anos. Quando se encontravam a meros centímetros de distância, ele levou a mão à cara dela, comprovando de que não se tratava de um sonho. Não se tratava mesmo de um sonho.
- Eu sabia que te encontraria aqui.
- Pensei que nunca mais te visse.
- Lembras-te de quando me disseste se no futuro eu estaria tão distante como aquelas luzes que vimos no horizonte, na praia? Eu prometi a mim mesmo nunca me distanciar tanto como aquelas luzes, e que se alguém tivesse que se afastar terias de ser tu.
- Esperaste por estes anos todos…
- Éramos crianças. Eu não podia exigir muito mais de nós.

Era 8 de Setembro e naquele dia deu-se um eclipse, visto por quase todo o continente americano. Aos poucos a cidade veria o dia transformar-se em noite. Nova Iorque ficou totalmente absorta pela escuridão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Remendos


- Tenho fome.


- Outra vez!?




(...)








- Tenho de combater o vazio de alguma forma.

Viste dizer-me (apenas) bom dia (?)

Hoje acordei e a chuva que caía desenhava os teus traços na minha janela. A minha mão, do lado de dentro, mimou-te e os meus lábios tocavam o vidro suavemente, onde eu quase sentia os teus. Mas, quando a chuva passar, desapareces com ela também?


(Não, por favor, amor meu)

domingo, 19 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Afastar (de vez em quando) é bom


Afastar-me das palavras é bom de vez em quando. Gosto muito delas, como se fossem gelado e eu uma menina pequena de estômago vazio. Fazem-me falta, são como um vício. Porém, lembram-me muito de ti quando eu já não penso noutra coisa o resto dos minutos em que delas me afasto. Obrigam-me a racionalizar-te, a analisar todos os teus impulsos, todas as tuas atitudes. Obrigam-me a abrir os olhos e a perceber, verdadeiramente, o significado de todas as palavras que tu, tão bom com elas, escasseias em mim. Obrigam-me a perceber que te vais embora, que sou pouco para ti e que a nossa felicidade e momentos juntos são efémeros, fugazes e perto do fim da validade. Por isso, afastar-me das palavras é bom de vez em quando, mesmo quando elas são gelado e eu menina de estômago vazio e flor lilás pendurada no cabelo às ondinhas do mar. E quando me afasto, quando me perco da razão, quando não ouço vozes interiores e exteriores a mim é maravilhoso. Vejo-te e sinto-te no fundo de mim, mergulhando em espaços que eu não conheço mas que tu, agilmente, chegas. E entras como se a casa fosse tua, como se as ruínas que me foram feitas ao longo dos tempos fossem labirinto indolor. É maravilhoso estar contigo esquecendo que o faço erradamente, cavando o meu próprio buraco que me comerá viva e ao qual eu não oferecerei resistência. Mas maravilhoso é o teu peito e adoptei, ilegalmente, o teu pescoço.
Tu és maravilhoso mesmo que só aos meus olhos.
Eles chegam para ti ainda que a alma seja demasiado pequena e o corpo demasiado puro.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sinto a tua falta

Porque é que partiste? Porque é que não voltas?
Posso contar-te um segredo?
Já não espero por ti, mas ainda sinto a tua falta. Tenho saudades tuas, mas principa
lmente de nós.
Já não espero, mas ainda estou no mesmo sitio onde me deixaste, meu amor.
«Ligo directo para a caixa de correio só para ouvir a tua voz, sei que é cena fora, mas todo o dia chega a hora em que o lado esquerdo chora quando se lembra de nós. (...) Já que falo por eufemismos, gostava de dizer que ainda gosto bastante de ti. (...) A verdade é que a saudade que passou, não é mais que muita, mas por muita força que faça ela passa por saber que te vivi. Tu deste tudo, eu joguei, arrisquei, e perdi, agora.»
Sinto a tua falta.

terça-feira, 7 de julho de 2009

não partas, não hoje.

meu amor, o nosso rebento sufoca a cada minuto que passa. não reage, não ronrona, não guincha, não fala. o que é que eu faço? sabes tão bem que ele é parte de mim, não vivo sem ele. balanço-o nos meus braços e sussurro-lhe ao ouvido. os seus olhos não brilham, aparentam opacidade e fraqueza. nem um pedaço de comida, nem uma gota de água consegue engolir. e o que se prolonga há um mês, agora aproxima-se do fim. ele desiste e eu não consigo deixá-lo partir, apesar de não dispor de mais meios para o manter.
meu amor, diz-me onde a (tua) força que aguenta o peso da morte e tudo o que ela irá arrastar.

domingo, 5 de julho de 2009

Eu fui devagarinho com medo de falhar, não fosse esse o caminho certo para te encontrar. Fui descobrindo devagar cada sorriso teu, fui aprendendo a procurar por entre sonhos meus.
um olá para a minha nova irmã, a Clara :D *

sábado, 4 de julho de 2009

caminhamos fielmente ao som lento da melodia e de que nos vale o andar? amantes somos do velho orgulho que, retardado, se entrega eterno. rezamos os lerdos passos que condenamos à travessia errada. e que venha um luto entristecer a viagem, que eu detenho lírios e violetas e sinos para que bailem em vero tom e para que se arremessem saudosos ao desejo fúnebre.
visita, lentamente. chega manso, perto. tiara de flores que te presenteio. não te demando acoitar, nem aparentar carecer. rogo-te, simplesmente, que acarretes o teu corpo e que acolhas comigo a hora da morte...
nosso ódio melódico sabe bem a más horas. apetece chorar poesia, meu amor. e que advenhe em lágrimas e que se esfumasse. oh, não me peças os sadios sonhos que te sei enlevar. triste, eu já só tenho tabaco.
esta sinfonia macabra soa bem sobre a aurora. acorda ela cedo e bem se diz despertar e súplicas se ouvem quando as encaminho ao tempo, para que não lhe permita que vá tarde mas só jura partir quando sabe, certa, ir embora. pois temo que o poente encerre um recomeçar maldito sobre quem acorde.
vem sepultar comigo o infortúnio que certo se deleita sobre nós ou vem, apenas, para que a terra baile connosco em amargurado descanso. sabes não haver um maior despertar, sobre o vigarismo do entardecer…
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em vão, foram queimados mais de três meses, amor.
.
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fotografia e texto: eduardo morgado

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Coração bonito


E finalmente abri a janela que nos separava os rostos mudados do tempo arrastado e pude sentir a tua respiração nos meus olhos. Que bom foi afastar poeiras, nascer de novo. Olha para o meu sorriso e vê a diferença. Sou feliz agora. Não vai ser fácil, porque nada é fácil contigo e eu (já ouvi dizer) de difícil tenho muito. Mas é essa tua complexidade que me abisma, é esta diferença que me rasga o caminho até ti, até este turbilhão de contentamento que me faz "ser" em ti. Só consigo pensar em como és inteligente. Um dia quero passar uma noite inteira a ouvir-te, mesmo que a conversa não seja a mim dirigida. Bebo-te a sabedoria. Todas as horas contigo são poucas e eu, mesmo rendida de cansaço, não abdicaria do teu tronco forte, proporcional, feito à minha medida. Tens-me nas mãos e não sabes, porque eu de fácil tenho pouco e não ultrajo os meus valores. Mas tens aí, nessas mãos que fazem magia em mim, toneladas de um sentimento ao qual não quero dar um nome. Controlas o meu frenesim natural, a minha energia inesgotável. Sinto que me injectas calmantes nas veias assim que te passeias por mim. Tens cura para muita coisa, para doenças que eu sei ter. É belo esse gesto apertado que me fazes tantas vezes sem ninguém ver, surpreendendo a tua natureza selvagem. Um gesto apenas, tão simples e vulgarizado mas que em mim faz tatuagens definitivas. É belo o meu coração por ti.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Cidades Divergentes

Passeio pela cidade que nos acolhe desde o berço, símbolo da nossa identidade. Enquanto ouço os meus passos sincronizados na calçada da rua penso em como o destino, embora não totalmente independente, possui ruas inevitáveis, muito mais do que meras fraquezas e tentações. Ainda agora, namorando montras vestidas por manequins demasiado reais, recordo a primeira vez em que os meus olhos, um pouco desalentados então, pousaram nos teus. Hoje sei que foste tu quem me viu primeiro, quem primeiro especulou acerca daquela rapariga aparentemente tão normal. E estava consumado, e toda a loiça partiu. Mas eu nunca fui normal e tu nunca te ficaste pela especulação. Vejo gente apertada, vergada em resposta ao peso desumano que carrega nas duas mãos pequenas. Falam em crise, porém nunca vi tanta procura. Creio que há mais crises de coração, menos tempo para amar. Talvez seja essa a tua doença, a tua crise existencial que não conseguimos ultrapassar. Talvez seja esse o mal desta cidade, tornando-a cega e alheia ao essencial. Talvez seja por isso que ela, embora nos tenha trazido ao colo desde o berço, nunca proporcionou o nosso encontro, mostrando-me o teu rosto num passeio como este à beira rio. A cidade não ama, nem tem tempo para isso. E eu fui contra o imposto, contra o estipulado e quando finalmente o destino inevitável nos juntou longe daqui eu amei-te inconscientemente. Amei-te muito e não sabia, porque na cidade de onde vinha não havia tempo para amar e eu, que brincava aos corações feridos há demasiado tempo, não me sentia preparada para abdicar da minha estabilidade vergonhosa. Deixei-me estar, filha fiel da cidade divorciada. Mas eu tinha amado, tu tinhas feito algo parecido, não podíamos fugir. Voltaste, agora no centro da cidade que nos corrompe e afasta e, com um olhar vindo do fundo do mar revolto e apertado, despiste-me o manto das dúvidas, das defesas, dos argumentos. Passeio pela cidade que nos acolhe desde o berço, símbolo da nossa identidade. Vejo um ponto de luz por cima das cabeças que formam a multidão cinzenta, vergada em resposta ao peso desumano que leva nas mãos pequenas, no coração vazio. Sorrio disfarçadamente, escondendo os olhos por baixo da aba do chapéu azul, como que lendo nesse ponto de luz a tua imagem. És tu quem caminha para mim, iluminando corações perdidos e mal amados. E em plena cidade que não ama nem sabe amar, recordas a menina que viste há um tempo atrás pela primeira vez e á qual adjectivaste de normal no teu pensamento, prevendo uma história comum, um corpo dado como tantos outros a troco de um coração vazio. Tiras-me o chapéu e os cachos do meu cabelo agora longo escorrem pelos ombros morenos e saudosos de ti. Não, não sou normal, a nossa história não é comum. É que nós, mal ou bem, temos a capacidade de amar e o meu corpo é dado ao som do teu suspiro apaixonado.





Vejam neste blogue http://escritosdeumnescio.blogs.sapo.pt/ uma faceta mais humorística derivada do mesmo título. É o blogue de um grande amigo meu e decidimos fazer um texto a partir do mesmo tema pois, apesar de escritas diferentes, acreditamos que nos completamos com a diferença de cada um de nós ;)

terça-feira, 30 de junho de 2009

corte


soubeste sempre como me levantar,
escondeste-me atrás de ti quando precisei de protecção,
tapaste as minhas lágrimas com a tua sombra.

eras mais que um vício, mais que uma tentação.
era pelo teu nome que me reconheciam, eras a minha total identidade.

sempre me soubeste cobrir e proteger dos perigos.
éramos inseparáveis, há anos!

mas sabes? tudo tem um fim, ainda que doloroso.
faz hoje uma semana que te cortei da minha vida, até voltares a crescer nela!


não é um adeus, é um até já!

cortei-te e perdi a identidade, eras mais que uma simples gadelha.

{faz hoje uma semana, cortei o meu cabelo}

Silêncio da [c]alma


Uma vez, alguém disse-me ...

" Não são as distâncias que separam as pessoas,
são os silêncios e a falta de Amizade. "






Eu subscrevo e assino por baixo!
tocas-me no braço e apareces por magia, como de rotina se tratasse. os meus olhos transformam-se em pérolas e a voz sucumbe de espanto, mentalizada de uma hora longa de chegada. respiro fundo e esboço um sorriso. levanto-me, dou três voltas e disparo com perguntas. lembrando-te a criança que conheceste a poucos dias, meses ou até anos, sabe-se lá onde. acalmas-me, repousando a cabeça no meu ombro e mexendo-me na barriga. nada procria nela a não ser o borboletar do alívio da tua partida do longe.
encaminho-te para algum lado onde se veja o céu. escuro, carregado de raiva. é assim que me sinto. sabes bem qual é a razão mas, o teu palpitar de mãos é sempre uma benção.
queixas-te de como está calor e eu digo que sufoco com a humidade, um ambiente tropical instala-se em mim. desvias-me da janela e levas-me até às profundezas, onde o frio apaziguador habita. seria a hora certa de me dizeres que tens saudades, mas não.
em vez disso, agarras-me as mãos e perguntas como vamos ultrapassar isto que me mói.
enlaçaste em mim com perguntas que me clarificam e despertas-me senso racional.
a partir daqui concordo com cada palavra tua. e nem o céu consegue superar a beleza dos teus olhos que encravam os meus, nem a honrada maneira de me apoiar.
meu amor, a tua estabilidade tem sempre hora certa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009



"O Verão é uma das quatro estações do ano. Neste período, as temperaturas permanecem elevadas e os dias são longos. Geralmente, o verão é também o período do ano reservado às férias..." bla bla bla

Chegou o Verão! Dizem por aí que é a melhor estação de todas as quatro, e eu, possivelmente, concordo. De facto, é a época do ano em que se vê mais sorrisos na cara das pessoas. O paizinho esquece a crise e investe o dinheiro que não tem em uma ou duas semanas de férias com a família na praia. Verão é a época de se falar dos cremes e da depilação, e não esquecer também que é nesta altura que se aposta no exercício físico. Afinal o papá ou a mamã passam 10 meses sentados no sofá a ver televisão e a reclamar que não recebem o ordenado ou que é pouco para aquilo de que necessitam, e por isso é estritamente necessário recompensar o corpo para que se o possa exibir na praia em frente aos amigos e amigas. É também a altura da mãezinha limpar a casa (as que se importam com a sujidade), e após as limpezas, juntar os trapos e partir rumo à praia com a família. É também tempo de as amigas se juntarem por baixo do mesmo chapéu, discutindo as novidades das mais premiadas revistas do mundo cor-de-rosa, a Caras, TV7Dias ou a Flash, comentando as estrias da Elsa Raposo ou a dieta da Júlia Pinheiro, e esquecendo mais uma vez a crise que assola o país e o mundo. Está sol e por isso temos de aproveitar os efeitos que ele tem inevitavelmente sobre o nosso estado de humor. Os homens, por sua vez, comentam os jornais, ora a Bola ora o Expresso. E ali bem perto, ainda se ouve o grande Quim Barreiros alegrar mais uma milésima edição do Portugal no Coração em digressão pelo país e em directo para a RTP1. As crianças saltam e gritam de alegria, dançando com as avós e os avôs a música popular de que tanto nos orgulhamos.
Lá à frente, à beira mar não podem faltar as discussões entre marido e mulher, em que a Lena diz para o Zé "Oh zé olhás crianças homem", e à qual o Zé responde "Oh mulher, deixa-as brincar à vontade". Por sua vez, as crianças gritam e atiram areia e água para cima de toda a gente, e o tio que está a tentar dormir passa-se, levantando-se da toalha para dar uma chapada ao miúdo que lhe atirou areia para cima da cara. Quando por fim se volta a sentar na toalha, passa uma boazona por ele, à qual retribui um olhar tentador, fazendo com que a mulher do tio se levante e comece aos berros no meio da praia. Ali bem ao lado, o avô compra uma bola de berlim ao neto de 90kg, às escondidas, porque a mãezinha não deixa o miúdo comer porcarias.
Por cima de todos eles, reina um sol explêndido e um tempo espectacular. Tomam-se banhos de sol e de água cristalina, dá-se cor ao corpo e desenham-se sorrisos no meio do estardalhaço que é esta época de felicidade, afinal estamos no Verão...!

Foto: praia nos anos 60

domingo, 28 de junho de 2009

saudades


Tenho saudades tuas e o seu reconhecimento devia ser suficiente para me sentir mais leve. Sinto saudades das tuas mãos na minha cintura, da tua boca na minha, dos teus olhos nos meus. Sinto saudades de te abarcar em mim, de sentir a tua visão trespassar-me o corpo dormente do teu toque confuso. Sinto saudades da música da tua voz. E pode parecer limitado, pode parecer insípido, mas tenho saudades tuas, daquelas mais puras, daquelas mais insuportáveis.
É tarde e não te espero. Sei que não vens. Tenho saudades tuas e tu não sabes o que dizer. Tu, que tão bom és com as palavras. Eu, que tantas vezes me pus á tua escuta, deleitada nessa desenvoltura, nessa diferença, esperando que alguma vírgula tua me caísse nas mãos molhadas da água que deixo correr pelo corpo nervoso do teu. É tarde e penso em ti, conformada com a tua ausência. Sabia que não virias. Só não sei quando vens.
E vais facilitando a minha saudade, esticando a corda do amor impossível de abdicar, navegando na certeza de que estarei sempre aqui, saudosa e apaixonada. Talvez assim fique para sempre, mas um dia a corda rompe com o passar dos dias, um dia a saudade mata de vez e não deixa nada mais para trás a não ser um coração frio de decomposição. Ainda tenho saudades tuas, ainda estou apaixonada, ainda sou capaz de esticar a corda, sentindo o corpo frágil dilatar num desassossego.
Não demores muito. Não posso prometer nada. A saudade de mim é também muito grande.

Vale a pena?











Liguei-lhe:

- Pergunto-me se vale a pena. (choro)

- O que, tanto te perguntas tu, o quê? (silêncio, alguns momentos)

- Se vale a pena esperar para ouvir a tua voz ao meu ouvido. (não hesitante, mas ainda a chorar)
- Tu estás a ouvir-me ao teu ouvido.
- Não é isso, tu sabes que não é isso. (quase soletrando)

- Amo-te. (e desligou)


Voltou a ligar mais tarde:

- Amo-te. (e desliguei)

Permaneço em espera.

sábado, 27 de junho de 2009


não há necessidade de mentir, dizer que não há forma de eu fugir sem te perderes. não me digas que sou a culpada, não te culpes a ti mesmo para eu ficar. vou embora deste jardim, agora sem vestígio de vida. despi o passado, como ainda me encontras? o nosso fogo queimou-nos. sacrifica o teu ar e afoga-te de corpo desfeito em águas mortas. eu não estou perto de ti; nem pedi unidades de salvamento. chegámos antes de partir, por onde queres ir? a corrida já acabou. toda esta luta, esta derrota, esta dor. não basta fingires, podes parar, não basta o mar alto em que remas. eu vi o fim há muito tempo. nada de mim mudou, eu só desisti de procurar.
foi só por me teres julgado cega; eu não desesperava por companhia. pergunta o que quiseres, eu não vou responder.

imagem de luís belo

quinta-feira, 25 de junho de 2009

tu.

o teu olhar, profundo, completa o meu, é colorido o imaginário do teu sorriso. és tu quem, secretamente, pinta de todas as cores os esboços dos meus sonhos. encontrei-te um dia, como por acaso, e tornaste-te o meu único refúgio.
há um olhar qualquer, sem ser o teu, a espreitar-me do fundo dos teus olhos. há uma voz qualquer, não é a tua, que grita da tua garganta. há um perfume qualquer, que não o teu, que emana dos teus braços. há um sorriso qualquer, sem ser o teu, que enche a tua face. como se tu tivesses mudado, e eu já não fosse importante.
tenho medo de acordar e estares perdida nos braços de outro. tenho medo de olhar para o espelho e não te ver. já não suporto a tua ausência.
se me procuras, porque insistes em não me encontrar?

...

arrasou-me um pesar, uma mágoa que contem nos olhos os sonhos de um imortal. arrasta as palavras, suscita a loucura nos mais ínfimos níveis. destrói as quimeras que, pouco a pouco, começam a despedaçar-se e a flutuar por aí, alheias ao desespero e a qualquer súplica. roguei, do alto da minha inconsciência, para que não sugassem a minha restante sanidade. queria agora olhar a face desse bicho enorme que me queimara três quartos de vida. abri os olhos e com uma carícia, que bem poderia ser a última, arranquei-lhe a fantasia:
- oh não, eu conheço-te.